quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Elogio da Loucura – Leona Cavalli - Caixa Cultural Brasília


    O trono. Soberana. Gargalha. Linda. Plena. A própria Loucura. Gargalho. Louco. Loucos. Súditos. Loucura. Soberana. Nascido da pena de Erasmo de Rotterdam em 1509 e publicado em 1511, O Elogio da Loucura toma forma nos palcos com uma vitalidade feroz, provando que não há tempo que mude a essência humana. Concebida em um processo compartilhado entre a atriz Leona Cavalli e o diretor Eduardo Figueiredo, a adaptação traz para a cena a Loucura em primeira pessoa. Não, não falo dessa Deusa como patologia, mas sim da força motriz da existência. Afinal, que sociedade permaneceria de pé sem o bálsamo da Loucura? É a loucura que nos põe a respirar. Combustível e Motor.


    No corpo de Leona Cavalli a divindade ganha carne, fôlego e delírio. Transcende. Obscura e Solar. Loucura Sã. Se agiganta diante da plateia e se transmuta, múltiplas Leonas e Loucuras em desfile: da cortesã sedutora à bufona impiedosa, da rainha soberana à criança indomável. A energia pagã. O olhar que atravessa a certeza dos que pensam que sabem. Caos criativo. Dionisíaca!

    A direção de Eduardo Figueiredo equilibra a erudição renascentista com o teatro contemporâneo, construindo uma dramaturgia marcada pela imagem, para junto com o poder de Leona trazer mais força ainda ao texto; ao mesmo tempo que consegue trazer uma forma muito mais palpável ao público em geral de sentir e absorver um texto com variadas e profundas referências filosóficas e mitológicas.

    O figurino veste a Loucura com pompa de monarca do absurdo, cabeças múltiplas, múltiplas cabeças, lindas botas, plumas, tecidos nobres e adornos que realçam a teatralidade do poder sem jamais sobrecarregar a movimentação ou o visagismo da cena. A iluminação de Gabriele Souza desenha clarões dourados e sombras recortadas que acompanham as mutações da atriz, em simbiose com a trilha sonora executada ao vivo, por Violoncelo e Percussão, cujos acordes e tambores ditam o ritual.


    Ao fazer o autoelogio, a Loucura nos empurra frente ao espelho mostrando que a pretensa sensatez é a mais cega das insanidades. As maiores façanhas humanas, da arte ao amor, do sexo até o nascimento, do nascimento até o sexo, do sexo até a morte, seja o que for, só florescem porque nos permitimos. Sob as máscaras sociais, os títulos acadêmicos e a gravidade do cotidiano, precisamos que alguém viajasse mais de 500 anos para revelar que a realidade só se sustenta no delírio. 


"Primeiro vem o dia. Tudo acontece naquele dia. Até chegar a noite, que é a melhor parte. Mas logo depois vem o dia de novo, e vai, e vai, e vai… E é sem parar."


    Entrevista sobre a peça: clique aqui
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    Agradecimento: Rodrigo Machado (Território Comunicação)


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