O medo do corno. A cela. A clausura.
Ao longo dos séculos, o riso perdura.
Um homem obcecado por um plano tirano,
Que foge da vida buscando o engano,
Em seu medo, na própria amargura,
Tenta moldar o afeto, com rédea segura,
Querendo uma esposa ingênua e tapada,
Na mais absoluta ignorância criada.
Se hoje o abuso nos causa repulsa e terror,
Nos tempos de outrora gerou grande clamor.
O controle que tenta a elas silenciar,
Com falsos preceitos e rezas a ditar,
Encontrava no templo o aval da doutrina,
Para manter submissa a mente feminina.
O que antigamente era norma de zelo e decência,
Revela-se ao longo do tempo em cruel violência;
Mas a força do texto resiste ao desterro,
Sem que o tempo apague o rastro de erro.
Molière, com a pena afiada e certeira,
Fez do riso do homem sua grande trincheira.
Há quase quatrocentos anos, no auge da mente,
Ele próprio viveu este Cornélio demente.
Sua escrita maldita, que o tempo não gasta,
Desmascara a tolice que a vida arrasta,
Provocou a sociedade, enfrentou o sermão;
E fez da tragicomédia uma revolução.
O Grupo TAPA, com zelo e esmero profundo,
Traz em cena esse clássico para o mundo.
Sob a direção de Clara Carvalho,
A trupe caminha por uma peça do caralho.
Brian Penido Ross dá ao Cornélio a exagerada medida,
De uma farsa que pulsa, de alma vertida.
Carol Kufel, no palco, é a Inês que floresce,
Num jogo em que a plateia jamais adormece.
Há décadas na estrada dos saltimbancos, o Tapa no tablado,
Mantendo com afinco o verdadeiro templo sagrado.