“Todas as cartas e poemas que escrevi pra você” compartilha memórias e apresenta Lucas Sued em uma estreia feliz e sensível; fruto de sonho e muito trabalho de um artista.
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Textos dedicados a análises teatrais e dicas culturais
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O vazio que se preenche aos poucos. O giro contínuo e invisível de uma engrenagem que não cessa de rodar. A trajetória circular que desde o início carrega a semente inescapável do fim. A dramaturgia de Leonardo Netto nasce de um incômodo visceral, o choque diante da espetacularização e da banalidade da violência que nos invade pelas telas cotidianas, para investigar o que pode empurrar um homem comum e pacato, avesso a conflitos e guiado pela lógica dos números, ao epicentro da barbárie. O texto é cirúrgico e redondo, cada premissa avança com a precisão até atingir um ponto de não retorno, mostrando com clareza desconcertante como a fronteira entre a civilidade e o abismo pode se romper inesperadamente.
Eduardo Moscovis apresenta uma atuação visceral, potente, consagrada pelo Prêmio Shell de Melhor Ator. O ator, movido pela paixão pelo tablado, ainda que relutante antes de ler o texto, o tomou para construir um grande trabalho, sozinho em um palco vazio, sem colegas, sem subterfúgios; sentado, em uma rotação quase imóvel, que está no peso de cada respiração, no olhar que oscila entre a lucidez e o espanto, no choro e na violência na hora certa. A direção de Rodrigo Portella é cúmplice de um trabalho que dispensa excessos cenográficos para acontecer exatamente na mente do público, transformando o silêncio e a imobilidade em matéria-prima.
Destaco a relevância do Circuito de Teatro Brasileiro, realizado pela Deca Produções, consolidando um corredor cultural imprescindível na Capital do País, garantindo ao público local acesso a importantes e premiadas peças nacionais.
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Agradecimento: Rodrigo Machado (Território Comunicação)
Cabaré, radionovela, plumas, paetês e muito Samba. Um portal dos anos 1930 que se abre no coração de Brasília. Amor em Rosa, musical do coletivo Criaturas Alaranjadas, propõe uma insurreição poética para contar a história de um dos maiores compositores brasileiros e, ao mesmo tempo, tratar do cotidiano da alta roda da Capital. Sob a direção de Sérgio Maggio e Jones Schneider, o musical apresenta uma forma bem humorada, caprichada e original de nos contar sobre a vida de Noel Rosa.
A dramaturgia de Sérgio Maggio escolhe um caminho audacioso: costurar 21 canções de Noel com o melodrama das radionovelas e o deboche do teatro de revista. O resultado é um estetáculo vibrante, conduzido por diversas figuras caricatos interpretados e cantados por Jones Schneider, Wol Nunnes e Jeff Moreira, acompanhados pela afinada banda que executa as canções de Noel.
Na parte técnica, o figurino reluzente traduz a época e o tom do deboche de cada personagem; a cenografia recorta o tempo e espaço de forma primorosa, transportando o espectador entre o ambiente boêmio, o da Radionovela e o do Teatro de Revista; e a iluminação pincela a cena entre as sombras da noite e as cores vibrantes do cabaré.
O Sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora
Sol, pelo amor de Deus, não vem agora
Que as morenas vão logo embora
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Fotos: Divulgação
O medo do corno. A cela. A clausura.
Ao longo dos séculos, o riso perdura.
Um homem obcecado por um plano tirano,
Que foge da vida buscando o engano,
Em seu medo, na própria amargura,
Tenta moldar o afeto, com rédea segura,
Querendo uma esposa ingênua e tapada,
Na mais absoluta ignorância criada.
Se hoje o abuso nos causa repulsa e terror,
Nos tempos de outrora gerou grande clamor.
O controle que tenta a elas silenciar,
Com falsos preceitos e rezas a ditar,
Encontrava no templo o aval da doutrina,
Para manter submissa a mente feminina.
O que antigamente era norma de zelo e decência,
Revela-se ao longo do tempo em cruel violência;
Mas a força do texto resiste ao desterro,
Sem que o tempo apague o rastro de erro.
Molière, com a pena afiada e certeira,
Fez do riso do homem sua grande trincheira.
Há quase quatrocentos anos, no auge da mente,
Ele próprio viveu este Cornélio demente.
Sua escrita maldita, que o tempo não gasta,
Desmascara a tolice que a vida arrasta,
Provocou a sociedade, enfrentou o sermão;
E fez da tragicomédia uma revolução.
Traz em cena esse clássico para o mundo.
Sob a direção de Clara Carvalho,
A trupe caminha por uma peça do caralho.
Brian Penido Ross dá ao Cornélio a exagerada medida,
De uma farsa que pulsa, de alma vertida.
Carol Kufel, no palco, é a Inês que floresce,
Num jogo em que a plateia jamais adormece.
Há décadas na estrada dos saltimbancos, o Tapa no tablado,
Mantendo com afinco o verdadeiro templo sagrado.
O texto, que marca a despedida da saudosa Jandira Martini em colaboração com Maurício Guilherme, desenvolve-se a partir do confronto inevitável entre duas solidões. Pai (Herson Capri) e filho (Caio Blat) se reencontram em meio ao silêncio de uma coleção de vinhos reunida ao longo de décadas. Afastados por desavenças mal envelhecidas, a ansiedade do filho em rever seu pai logo dá lugar a uma espiral de revelações, catalisadas pelo vinho, o desinibidor de verdades.
Herson Capri é o pai que, imerso no silêncio empoeirado, colecionou ao longo da vida raridades líquidas como quem tenta reter o tempo que escorreu por entre os dedos. Caio Blat é o filho, movido por uma urgência quase febril, um desespero que se esconde atrás de uma aparente altivez. O embate entre os dois possui ótima sinergia na troca de olhares e no tempo das pausas, dando profundidade ao texto.
A direção de Elias Andreato confia na força do texto e nos seus atores, sabendo quando deixar o silêncio atuar na cena. O cenário de Rebeca Oliveira evoca a sobriedade fria e acolhedora de uma adega esquecida, transformando o espaço físico em uma verdadeira biblioteca de memórias. A iluminação de Cleber Eli trabalha com tons quentes e sombras sutis, recortando os personagens como se estivessem suspensos no tempo, enquanto o figurino de Mari Chileni oferece a sobriedade exata para o cotidiano descolorido dos personagens.
Memórias do Vinho nos deixa com o retrogosto das conversas que tantas vezes adiamos, da nossa eterna dificuldade de entendimento entre a falta de paciência de envelhecer o vinho e de quando degustá-lo; entre a paciência de envelhecer e de quando degustar a vida sem antes de azedar.
Um apartamento. Desconstrução. Um relógio. Perdido em todos os sentidos. Um labirinto impiedoso. A mente. Desconstrução. Ser humano. Perdido em todos os sentidos. O Pai, texto do dramaturgo francês Florian Zeller, nos coloca dentro das angústias, delírios, alegrias e percepção de seu protagonista: André (Fúlvio Stefanini), um idoso de 80 anos que enfrenta os implacáveis efeitos do ocaso físico e cognitivo. Sua filha (Carol Gonzalez) lida com o dilema ético e prático do cuidado: acolher o pai em sua própria rotina ou seguir a sua própria vida.
A essência do texto tem força na narrativa. Ao invés de apenas observarmos o drama, somos inseridos nele, compartilhando a confusão da mente de André, vivenciando seus lapsos de memória, a troca de rostos ao seu redor e seu desaparecimento gradual e de seus pertences; e também a dificuldade de quem vive ao seu redor. Um drama íntimo que, ainda que tratado com bom humor, consegue nos tirar o chão.
Fúlvio Stefanini com a marca característica dos grandes atores, faz o atuar parecer simples; sua naturalidade e presença que dominam a cena. Celebrando mais de sete décadas dedicadas à Arte, Fúlvio nos entrega um protagonista complexo; seu personagem, André, foge de qualquer caricatura fácil e banal da senilidade; é espirituoso, carismático, orgulhoso de si e de uma vivacidade contagiante. A transição entre a altivez e a fragilidade é de uma beleza dolorosa.
Fúlvio é amparado pelo elenco dedicado, onde Carol Gonzalez, Lara Córdula, Carol Mariottini, Luciano Schwab e Fulvio Filho, funcionam como âncoras e espelhos da realidade que se despedaça na nossa frente. A direção de Léo Stefanini equilibra muito bem a comédia e o drama.
O cenário de André Cortez se desconstrói como a narrativa: as paredes e os móveis parecem sofrer um lento e sutil processo de subtração, materializando no espaço físico o apagamento das memórias do protagonista. A iluminação de Diego Cortez e o som de Raul Teixeira e Renato Navarro desenham com sensibilidade as sombras e os silêncios dessa mente enclausurada, enquanto os figurinos de Lelê Barbieri dão a textura exata ao cotidiano que descolore.
O Pai expõe nossa própria finitude em um espetáculo comovente e reflexivo.
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