sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A Dignidade dos Invisíveis: A Retrospectiva Aki Kaurismäki no Cine Brasília

    Um cigarro que queima devagar. A fumaça que sobe. O copo de cerveja sobre o balcão. O silêncio que grita. Um cachorro. Um jarro de flores. Uma casa humilde. Aki Kaurismäki não é um cineasta comum; é uma trincheira contra a pasteurização e padronização do cinema moderno. Ao longo de quatro décadas de uma carreira forjada à margem de Hollywood, o mestre do cinema finlandês construiu sua lenda na poesia minimalista e por sua postura: seja colocando no bolso o Urso de Prata em Berlim de melhor Diretor (O Outro Lado da Esperança - 2017), seja boicotando solenidades do Oscar em protesto contra o patético imperialismo. Avesso às fórmulas do mainstream, Kaurismäki nunca cedeu, mantendo-se fiel a um cinema de operários, desempregados, fracassados e solitários que encontram entre si o afeto e a solidariedade como forma de resistir.     


   A filmografia de Aki atravessou diferentes momentos sem jamais perder a identidade e a assinatura. Da crueza social da Trilogia do Proletariado (Sombras no Paraíso, 1986; Ariel, 1988 e A Garota da Fábrica de Fósforos - 1990) à melancolia  da Trilogia dos Perdedores (Nuvens Passageiras – 1996; O Homem Sem Passado – 2002; e  Luzes na Escuridão – 2006), até sua fase recente voltada ao acolhimento e à imigração, sua assinatura visual é inconfundível. Basta um único fotograma: a geometria precisa dos planos, as paredes em tons primários desbotados, a flor solitária sobre a mesa de fórmica, as casas modestas, os cachorros leais, a música que brota de uma velha jukebox, o rádio de onde soam atrocidades bélicas e a melancolia banhada por um humor peculiar e absurdo. Há muita dignidade na pobreza retratada por Kaurismäki. Uma pobreza que jamais imaginaríamos ser tão dura quando pensamos em um país nórdico, mas ela existe e está lá retratada. E com tamanha humanidade, Aki não vitimiza seus personagens; ele os enobrece através de uma trupe histórica e repetida de atores, cujos rostos imutáveis e olhares profundos dizem tudo o que muitas vezes apenas as palavras não dão conta de expressar.



    Percorrer as obras reunidas na mostra é testemunhar pequenas e grandiosas obras-primas. Vou discorrer brevemente sobre as minhas favoritas: Em Sombras no Paraíso (1986), o lixeiro e a operária de supermercado descobrem que o amor compartilhado é a única fresta de luz em uma rotina fabril opressiva. Com A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (1990), o diretor atinge o ápice do despojamento ao narrar a solidão de uma mulher, cuja revolta silenciosa e implacável é o grito desesperado de quem foi empurrada para além dos limites do desprezo. Já em A Vida Boêmia (1992), rodado em um preto e branco nostálgico pelas ruas de Paris, a fome e a penúria de três artistas marginais (um escritor, um pintor e um músico) são transfiguradas em uma ode à amizade e à cumplicidade. Essa mesma obstinação comove em Nuvens Passageiras (1996), no qual o fantasma do desemprego é enfrentado por um casal com uma coragem poética que recusa a humilhação.



    A maturidade humanista do cineasta atinge o estado de graça em O Homem Sem Passado (2002), fábula luminosa sobre um homem desmemoriado que, acolhido por uma comunidade de sem-teto e pela música do Exército da Salvação, mostra que a verdadeira identidade não está nos documentos. Em Luzes na Escuridão (2006), a desilusão do vigilante noturno enganado pela crueldade do crime desenha o retrato mais austero da exclusão urbana. Seu último filme até o momento, Folhas de Outono (2023) faz uma declaração de amor ao cinema apresentando um romance casual de duas pessoas melancólicas e solitárias e uma sucessão de encontros e desencontros.


  

  Há beleza na desgraça. Há som no silêncio. Aki Kaurismäki sabe jogar o jogo. Sabe ser peculiar e marcar para sempre quem o assiste. Me arrebatou de primeira e assisti cerca de 12 filmes em 10 dias via streaming. Foi uma alegria ter o privilégio de estar presente na  Retrospectiva Aki Kaurismäki, que promoveu a exibição integral de todos os seus 18 longas de ficção, ainda que só tenha conseguido rever três. A iniciativa exemplar da Crisol Filmes, conduzida por Cristiane Oliveira, aliada à curadoria do cineasta brasiliense Gustavo Galvão e ao acolhimento do histórico Cine Brasília, deu a chance ao público de rever na telona cada detalhe da grandeza de um dos maiores mestres do cinema, que atravessou 5 décadas, ainda que para a grande maioria seja um desconhecido. A Mostra também passou por São Paulo e agora será realizada no Rio de Janeiro.

    Meu desejo é que esse pequeno texto ecoe, ainda que no silêncio, e mova a curiosidade, ainda que seja de poucos.  

"- Você gostou do filme? 

- Gostei muito. Fez a gente esquecer a dureza do mundo por uma hora e meia." 


    

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Agenda Cultural de Agosto e Setembro/2026 - Brasília

 

O Deus da carnificina

Teatro UNIP

12 e 13/09/2026




Caixa Cultural Brasília

21 a 30/08/2026

Crítica




CCBB Brasília (temporada prorrogada)

06 a 30/08/2026

Crítica


A Árvore

Teatro UNIP

27 a 30/08/2026



TEATRO ESCOLA PARQUE 313/314 SUL

29/08/2026



Danúbio

Teatro Paulo Gracindo - SESC GAMA

30/08/2026




30/08 (dom), 16h e 20h — Espaço Cultural Renato Russo 

11/09 (sex), 14h30 e 20h — Complexo Cultural de Samambaia 




 Teatro Paulo Gracindo - SESC Gama - 04 a 06/09/2026

Teatro Paulo Autran - SESC Taguatinga - 11 a 13/09/2026




Teatro Mapati

04 e 05/09/2026



 Sesc Estação 504 Sul

05/09/2026



Entre Mundos

Espaço Cultural Renato Russo

05/09/2026




Teatro Royal Tulip

11 a 13/09/2026



LAMOUR: um espetáculo drag sobre o amor

Teatro dos Ventos - Confraria Artística

11 a 12/09/2026




Espaço Cultural Renato Russo

11 a 13/09/2026




Teatro dos Bancários

12 e 13/09/2026



Cavidade Escura - A Geometria da Origem

Unipaz EAD

13/09/2026



Entre Véus e Histórias

 Espaço Multicultural Casa dos Quatro

13/09/2026





Sesc Presidente Dutra

10 e 17/09/2026



Teatro dos Ventos

18 a 27/09/2026

Crítica



O Começo do Fim

Teatro Royal Tulip Brasília Alvorada

19 e 20/09/2026



Romeu e Romeu - Por Essa nem Shakespeare Esperava

Teatro Caesb Águas Claras

25/09/2026



O Filho

Teatro UNIP

26 e 27/09/2026


Teatro Infantil

Uma Aventura Congelante

 Escola Parque 308 Sul

29 e 30/08/2026



As Estrelas do K-POP

Teatro Royal Tulip

29/08/2026




Teatro Royal Tulip

30/08/2026


A Família Encantada

 Teatro Brasília Shopping

05 e 06/09/2026



Exposições

Exposição Yoshitaka Amano – Além Da Fantasia

CCBB Brasília

17/07 a 01/11/2026




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Elogio da Loucura – Leona Cavalli - Caixa Cultural Brasília


    O trono. Soberana. Gargalha. Linda. Plena. A própria Loucura. Gargalho. Louco. Loucos. Súditos. Loucura. Soberana. Nascido da pena de Erasmo de Rotterdam em 1509 e publicado em 1511, O Elogio da Loucura toma forma nos palcos com uma vitalidade feroz, provando que não há tempo que mude a essência humana. Concebida em um processo compartilhado entre a atriz Leona Cavalli e o diretor Eduardo Figueiredo, a adaptação traz para a cena a Loucura em primeira pessoa. Não, não falo dessa Deusa como patologia, mas sim da força motriz da existência. Afinal, que sociedade permaneceria de pé sem o bálsamo da Loucura? É a loucura que nos põe a respirar. Combustível e Motor.


    No corpo de Leona Cavalli a divindade ganha carne, fôlego e delírio. Transcende. Obscura e Solar. Loucura Sã. Se agiganta diante da plateia e se transmuta, múltiplas Leonas e Loucuras em desfile: da cortesã sedutora à bufona impiedosa, da rainha soberana à criança indomável. A energia pagã. O olhar que atravessa a certeza dos que pensam que sabem. Caos criativo. Dionisíaca!

    A direção de Eduardo Figueiredo equilibra a erudição renascentista com o teatro contemporâneo, construindo uma dramaturgia marcada pela imagem, para junto com o poder de Leona trazer mais força ainda ao texto; ao mesmo tempo que consegue trazer uma forma muito mais palpável ao público em geral de sentir e absorver um texto com variadas e profundas referências filosóficas e mitológicas.

    O figurino veste a Loucura com pompa de monarca do absurdo, cabeças múltiplas, múltiplas cabeças, lindas botas, plumas, tecidos nobres e adornos que realçam a teatralidade do poder sem jamais sobrecarregar a movimentação ou o visagismo da cena. A iluminação de Gabriele Souza desenha clarões dourados e sombras recortadas que acompanham as mutações da atriz, em simbiose com a trilha sonora executada ao vivo, por Violoncelo e Percussão, cujos acordes e tambores ditam o ritual.


    Ao fazer o autoelogio, a Loucura nos empurra frente ao espelho mostrando que a pretensa sensatez é a mais cega das insanidades. As maiores façanhas humanas, da arte ao amor, do sexo até o nascimento, do nascimento até o sexo, do sexo até a morte, seja o que for, só florescem porque nos permitimos. Sob as máscaras sociais, os títulos acadêmicos e a gravidade do cotidiano, precisamos que alguém viajasse mais de 500 anos para revelar que a realidade só se sustenta no delírio. 


"Primeiro vem o dia. Tudo acontece naquele dia. Até chegar a noite, que é a melhor parte. Mas logo depois vem o dia de novo, e vai, e vai, e vai… E é sem parar."


    Entrevista sobre a peça: clique aqui
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    Agradecimento: Rodrigo Machado (Território Comunicação)


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domingo, 16 de agosto de 2026

Todas as Cartas e Poemas que Escrevi pra Você – Lucas Sued – Espaço Cultural Renato Russo


    Cartas não enviadas. Versos guardados. Gaveta. Cofre. Mergulho. Asas. Voo. Um convite para entrar na mente de Lucas Sued em uma celebração do encontro. Integrando na mesma noite o lançamento de seu livro, a exposição visual Processos e a montagem cênica no Espaço Cultural Renato Russo, o projeto se revela uma confluência de linguagens, na qual a literatura ganha vida fora das páginas. 


    A dramaturgia tem uma premissa intimista: abrir as páginas de cartas e poemas como quem abre a porta de casa para uma conversa franca sobre amor, perdas e recomeços. O espetáculo se desenha como um refúgio do afeto, tratando as vulnerabilidades e a busca por identidade, criando uma atmosfera que acolhe a plateia sem afetação.


    A peça olha nos olhos do espectador e o insere na narrativa, transformando-se em uma partilha coletiva. O elenco composto por Lucas Sued, Stefany Motta, Maia Sallemar, Pedro Olivo, Vitctoria Cavalcante e Kalebe Lizan demonstra bom domínio cênico, transitando com naturalidade pela leveza das confissões cotidianas, passando pelos questionamentos humanos até a gravidade dos versos mais densos. Destaco as coreografias do autor e as atuações de Maia Sallemar, que quebra a quarta parede de forma muito natural conduzindo o início da viagem, e de Stefany Motta, que emprega energia cênica e se joga em cena.


    “Todas as cartas e poemas que escrevi pra você” compartilha memórias e apresenta Lucas Sued em uma estreia feliz e sensível; fruto de sonho e muito trabalho de um artista.


   Ficha técnica: clique aqui

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