O vazio que se preenche aos poucos. O giro contínuo e invisível de uma engrenagem que não cessa de rodar. A trajetória circular que desde o início carrega a semente inescapável do fim. A dramaturgia de Leonardo Netto nasce de um incômodo visceral, o choque diante da espetacularização e da banalidade da violência que nos invade pelas telas cotidianas, para investigar o que pode empurrar um homem comum e pacato, avesso a conflitos e guiado pela lógica dos números, ao epicentro da barbárie. O texto é cirúrgico e redondo, cada premissa avança com a precisão até atingir um ponto de não retorno, mostrando com clareza desconcertante como a fronteira entre a civilidade e o abismo pode se romper inesperadamente.

Eduardo Moscovis apresenta uma atuação visceral, potente, consagrada pelo Prêmio Shell de Melhor Ator. O ator, movido pela paixão pelo tablado, ainda que relutante antes de ler o texto, o tomou para construir um grande trabalho, sozinho em um palco vazio, sem colegas, sem subterfúgios; sentado, em uma rotação quase imóvel, que está no peso de cada respiração, no olhar que oscila entre a lucidez e o espanto, no choro e na violência na hora certa. A direção de Rodrigo Portella é cúmplice de um trabalho que dispensa excessos cenográficos para acontecer exatamente na mente do público, transformando o silêncio e a imobilidade em matéria-prima.

A montagem tem um estado de vigília hipnótico. Um silêncio sepulcral toma conta da plateia durante a peça, um silêncio raro de se sentir hoje em dia, quebrado algumas vezes pela trilha quase imperceptível de André Muato, uma sonoplastia de baixa frequência, que parece ecoar de um lugar distante e subterrâneo, que aprofunda a escuta, um silêncio de atenção! O ambiente ganha contornos com a iluminação de Ana Luzia de Simoni, que além de projetar, de forma minimalista, a luz como uma redoma, utiliza os pantógrafos dos refletores, para, de forma muito sutil, sugerir que o personagem está dentro de um globo da morte. Em outra grande sacada, a luz fica em grande parte do espetáculo também diretamente apontada para o rosto do público, um desconforto intencional que desfaz a distância cênica e nos avisa que não somos meras testemunhas, mas espelho daquela mesma equação.

A peça avança despindo nossas contradições; acompanhamos o processo em que gente passa a ser tratada como coisa. “Gente como coisa”, “Estamos sós”, como dizia Beckett. Diferente do picadeiro tradicional de um circo, no qual a plateia muitas vezes assiste ao globo da morte nutrindo a expectativa secreta e mórbida pela queda do piloto; no teatro, a lógica é subvertida e o choque e a queda não são externos, mas dentro de nós. Chegamos ao fim e os rostos ao redor exibem uma expressão física atordoada, como se cada um tivesse violentamente sido retirado do seu eixo. Vazio que se preenche aos poucos.
E o giro termina onde começou e tudo que temos que fazer tentar manter o insustentável equilíbrio.
Destaco a relevância do Circuito de Teatro Brasileiro, realizado pela Deca Produções, consolidando um corredor cultural imprescindível na Capital do País, garantindo ao público local acesso a importantes e premiadas peças nacionais.
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Agradecimento: Rodrigo Machado (Território Comunicação)