Um apartamento. Desconstrução. Um relógio. Perdido em todos os sentidos. Um labirinto impiedoso. A mente. Desconstrução. Ser humano. Perdido em todos os sentidos. O Pai, texto do dramaturgo francês Florian Zeller, nos coloca dentro das angústias, delírios, alegrias e percepção de seu protagonista: André (Fúlvio Stefanini), um idoso de 80 anos que enfrenta os implacáveis efeitos do ocaso físico e cognitivo. Sua filha (Carol Gonzalez) lida com o dilema ético e prático do cuidado: acolher o pai em sua própria rotina ou seguir a sua própria vida.
A essência do texto tem força na narrativa. Ao invés de apenas observarmos o drama, somos inseridos nele, compartilhando a confusão da mente de André, vivenciando seus lapsos de memória, a troca de rostos ao seu redor e seu desaparecimento gradual e de seus pertences; e também a dificuldade de quem vive ao seu redor. Um drama íntimo que, ainda que tratado com bom humor, consegue nos tirar o chão.
Fúlvio Stefanini com a marca característica dos grandes atores, faz o atuar parecer simples; sua naturalidade e presença que dominam a cena. Celebrando mais de sete décadas dedicadas à Arte, Fúlvio nos entrega um protagonista complexo; seu personagem, André, foge de qualquer caricatura fácil e banal da senilidade; é espirituoso, carismático, orgulhoso de si e de uma vivacidade contagiante. A transição entre a altivez e a fragilidade é de uma beleza dolorosa.
Fúlvio é amparado pelo elenco dedicado, onde Carol Gonzalez, Lara Córdula, Carol Mariottini, Luciano Schwab e Fulvio Filho, funcionam como âncoras e espelhos da realidade que se despedaça na nossa frente. A direção de Léo Stefanini equilibra muito bem a comédia e o drama.
O cenário de André Cortez se desconstrói como a narrativa: as paredes e os móveis parecem sofrer um lento e sutil processo de subtração, materializando no espaço físico o apagamento das memórias do protagonista. A iluminação de Diego Cortez e o som de Raul Teixeira e Renato Navarro desenham com sensibilidade as sombras e os silêncios dessa mente enclausurada, enquanto os figurinos de Lelê Barbieri dão a textura exata ao cotidiano que descolore.
O Pai expõe nossa própria finitude em um espetáculo comovente e reflexivo.
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