O texto, que marca a despedida da saudosa Jandira Martini em colaboração com Maurício Guilherme, desenvolve-se a partir do confronto inevitável entre duas solidões. Pai (Herson Capri) e filho (Caio Blat) se reencontram em meio ao silêncio de uma coleção de vinhos reunida ao longo de décadas. Afastados por desavenças mal envelhecidas, a ansiedade do filho em rever seu pai logo dá lugar a uma espiral de revelações, catalisadas pelo vinho, o desinibidor de verdades.
Herson Capri é o pai que, imerso no silêncio empoeirado, colecionou ao longo da vida raridades líquidas como quem tenta reter o tempo que escorreu por entre os dedos. Caio Blat é o filho, movido por uma urgência quase febril, um desespero que se esconde atrás de uma aparente altivez. O embate entre os dois possui ótima sinergia na troca de olhares e no tempo das pausas, dando profundidade ao texto.
A direção de Elias Andreato confia na força do texto e nos seus atores, sabendo quando deixar o silêncio atuar na cena. O cenário de Rebeca Oliveira evoca a sobriedade fria e acolhedora de uma adega esquecida, transformando o espaço físico em uma verdadeira biblioteca de memórias. A iluminação de Cleber Eli trabalha com tons quentes e sombras sutis, recortando os personagens como se estivessem suspensos no tempo, enquanto o figurino de Mari Chileni oferece a sobriedade exata para o cotidiano descolorido dos personagens.
Memórias do Vinho nos deixa com o retrogosto das conversas que tantas vezes adiamos, da nossa eterna dificuldade de entendimento entre a falta de paciência de envelhecer o vinho e de quando degustá-lo; entre a paciência de envelhecer e de quando degustar a vida sem antes de azedar.
