ConfuZo (está escurecendo dentro de mim), a mais recente criação da Cia. Dos à Deux, é uma fábula sobre a dor de não ter lugar. No centro da arena, o Homem-Árvore encarna o homem ancestral, o homem originário, o homem desterrado, o corpo dissidente empurrado à margem, a memória antiga apagada, o homem despejado, o homem irregular, o não-lugar. O orgânico é tão forte e tão frágil. Enraizar, pertencer, resistir e existir são verbos tão belos, tão fáceis de ouvir e tão difíceis de viver que de uma hora para outra podem ser criminalizados.
O trabalho físico em cena de André Curti como o homem-árvore atinge um rigor ritualístico ao equilibrar durante todo o espetáculo, sem as mãos, uma árvore de quase cinco quilos. Um desafio às leis da anatomia e da física. Fardo da existência. Não há descanso para o homem sem lugar; é como andar em uma corda bamba, em que qualquer deslize coloca tudo a perder; há riscos em fazer a vida brotar da aridez. É a memória da terra que luta contra o concreto que quer soterrá-la. É a recusa. A resistência daqueles que não querem ser o quintal de ninguém.
Em contraponto, Artur Luanda Ribeiro é o Homem-Luz. Montado em uma bicicleta que funciona como dínamo ao vivo, Artur pedala praticamente sem parar durante toda a peça para gerar a energia física que ilumina a cena, operando simultaneamente uma mesa de luz analógica, puxando cordas de sustentação e atuando. Um retrato do homem contemporâneo. O homem esgotado. Uma engrenagem multifuncional que precisa produzir, pedalando sem sair do lugar e sem tempo. É o motor que ilumina enquanto se desmonta por dentro. Além de dar luz ao drama do Homem-Árvore, é ele quem exige documentos e dita as normas. A ancestralidade de quem não tem lugar pouco importa para o Homem-Luz.
Gestado por cerca de 9 meses, ConfuZo (está escurecendo dentro de mim) atinge o público com um impacto descomunal, iluminando o diálogo profundo que o espetáculo estabelece com a trajetória da própria companhia. Após quase três décadas de pesquisa da Cia. Dos à Deux, a voz em cena surge pela primeira vez, inaugurando possivelmente uma nova fase e irrompendo como um grito que se liberta, expandindo as fronteiras do reconhecido refinamento do trabalho de corpo do grupo.
Assistir a este espetáculo sem saber o dia de amanhã, na véspera de um dia que parecia não ter fim, foi uma experiência muito diferente e inesquecível. O medo do Homem-Árvore estava estampado no rosto da plateia e, ao final, também no rosto dos atores. Qualquer deslize poderia ser fatal; como a voz e os corpos cênicos, não podíamos falhar, precisavámos ser vistos e ouvidos. Todo o mundo que mirava em nós. Entre o medo do não-lugar e o ato de iluminar. Entre a e fragilidade de existir e beleza da luta coletiva.
"Arde muito ser vela nesse mundo eletrificado."
Michelle Ferret
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Agradecimentos: Rodrigo Machado (Território Comunicação)
Fotos: divulgação
Reportagem sobre o Documentário "O Gesto entre Nós - A história da Cia. Dos à Deux"
Entrevista no Canal Arte 1: clique aqui
Outras críticas de minha autoria sobre espetáculos da Cia. Dos à Deux:
Enquanto você voava, eu criava raízes



































