quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Futuro do Passado, ATA – Agrupação Teatral Amacaca, no Museu Nacional da República

    

    O som do xilofone flutua sobre o espelho-d’água. A noite de Brasília. Pintura aberta, Museu Nacional da República ao lado e a Esplanada ao fundo. A Cultura e a Política. A lua  lua verticalmente acima, lá em cima, bem acima, longe, iluminando a noite e o concreto. A dança em câmera lenta ao som do tilintar, como se a vida e o tempo estivesse parado no ar. Futuro do Passado. Como não está? Ciclos lentos a tilintar. Nunca se esqueça que a democracia é uma fresta frágil, uma construção. 

Foto: Rodrigo Ferret
  
  Grave! O som grave do contrabaixo rompe o silêncio e acende a fagulha do tempo, Hugo Rodas ali a se projetar, boca do museu, antropofagia, boca e entranhas do pensamento, Huguito está sempre ali, no seu lugar. Amacaca. Visceralidade festiva que transforma a ausência física do diretor em antropofagia cênica. Rodas continua ocupando o seu lugar. Sempre esteve e está. Amacaca. Sem tempo para respirar, uma mulher antropofágica, pronta a nos engolir, intima a multidão a subir a rampa e adentrar a boca do tempo, boca do templo, boca de Hugo, antropofagia, uma noite no museu, o museu meia-lua sob uma meia-lua, refletindo o céu, refletindo Hugo. 

  Foto: Diego Bresani


Foto: Diego Bresani


Foto: Diego Bresani

Foto: Tadeu Almeida

    Sob a abóbada, uma mulher nos conta a sua história, a nossa história, que só conheceu os antepassados descendentes de europeus, dos outros, no máximo ouviu falar, bem longe; miscigenação esquisita, embranquecida, eugenia, antropofagia, sua história, nossa história, estudada, estudados, embranquecidos, acha que foi colonizada, acho que fomos colonizados! Sofisticação domesticada. Misturamos aqui o mundo inteiro esquecendo da nossa diversidade. Antropofagia violenta e excludente. Civilização que adora empilhar pedras e empilhar corpos embaixo delas. 

Foto: Divulgação

    A mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil, alimento básico essencial para a civilização. Nenhuma civilização nasceu sem ter acesso a uma forma básica de alimentação, e aqui nós temos uma, a mandioca. Saudemos a mandioca! Uma mulher sem retrocesso, mas estamos no futuro do passado, não se entrega as pessoas que o torturador quer. Eu me orgulho de ter mentido. Eu me orgulho imensamente de ter mentido. Porque eu salvei companheiros da mesma tortura e da morte. A dor é insuportável. Na democracia, diz-se a verdade, mas diante da tortura, quem tem coragem e dignidade mente. Dela nasce o Menino Feio, o Herói Sem Nenhum Caráter. Oriundo da cultura de povos indígenas do extremo norte brasileiro, Macunaímã e não Macunaíma. Cai de corda, acorda, pula corda, morte súbita; e, no futuro do passado, chegamos a 1922.

  Foto: Diego Bresani

    Foto: Diego Bresani

    Semana de Arte Moderna. Todo um país sintetizado pela burguesia paulistana, por herdeiros dos barões do café que fizeram fortuna com trabalho de escravizados. 1922. Futuro do Passado. Cadillac Verde. Anauê! Embranquecimento. Conservadorismo. Anauê! Nem um gay negro conseguiu sê-lo. Pesquisas são e foram importantes, mas imagina se falássemos disso desde aquela época, Mário! E 1922 vem com a cara de futuro do passado! Na esteira do movimento, Plínio Salgado, o integralista, verde como o Cadillac, fascista tupiniquim, tupi or not tupi. Projeto de Raça Cósmica, a antropofagia e a eugenia, em fagia, uma raça sendo engolida pela outra, miscigenação esquisita, embranquecida, eugenia, antropofagia, sua história, nossa história, raça cósmica. A ditadura contando com apoio de intelectuais de 1922, futuro do passado, raça cósmica, sua história, nossa história. Definindo por São Paulo o que é o Brasil. O que é a cultura brasileira. Comeram tudo.

   Foto: Patrícia Baldez


Foto: Tadeu Almeida

 Como se não bastassem as armas e apitos de cachorro, temos as cruzes, eurocêntricas, pauliscêntricas, raça cósmica ao som de coral messiânico. Raça cósmica, miscigenação esquisita, embranquecida, eugenia, antropofagia, sua história, nossa história. Cadê os Krenaks, Guaranis, Pataxós, Yanomamis, Potiguaras, Xavantes, Guajajaras, Terenas, Macuxis e muitos outros? Apagados? Integrados? Colonizados? Como é importante agroflorescer, mas só sabemos empilhar pedras e cruzes. Raça cósmica. Não conseguimos nem olhar para dentro, como olhar para o cosmos? 1922. Futuro do Passado. 2026. O fardo que as mulheres carregam. O patriarcado, o feminicídio. 1922. 2026. Tudo interligado. Quadros e esquadros. Enquadros. Em quadros. Nem as mulheres que se destacaram na Semana de Arte Moderna foram poupadas de serem emolduradas, de serem assediadas, de serem desacreditadas, chamadas de paranoia e aberração. 1922. 2026. 

Foto: Divulgação


  Foto: Patrícia Baldez

    Futuro do Passado é Manifesto e é Chá Revelação. Qual sua classe, imbecil? Um aviso. Um alerta. Futuro do Passado. Sua história, nossa história. Sobre escombros e pneus. A vanguarda modernista foi bancada pelo capital dos herdeiros barões do café, descendentes de escravocratas. Antes moíam escravizados, em 1922 moíam assalariados. Futuro do Passado. 2026. Precisamos tomar e ocupar os espaços e as ruas para que não sejam fechados. Somos o futuro do passado. Somos de luta e samba!

Foto: Tadeu Almeida


E aquilo que nesse momento se revelará aos povos ,

    Surpreenderá a todos não por ser exótico 

    Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto 

    Quando terá sido o óbvio 



    O eterno mestre Hugo Rodas será homenageado pela Escola de Samba Unidos do Varjão, no Carnaval de 2027.

  Foto: Diego Bresani




    Ingressos e Ficha Técnica: clique aqui

    Agradecimentos: Dani Neri

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Alta Sociedade, de Mauro Rasi; com Julia Lemmertz e Orã Figueiredo - Teatro da Unip Brasília

    A prataria esconde o mofo. O Champanhe que já borbulhou, em outros tempos, servido em taça de cristal. O desespero indisfarçável de quem tinha muito e perdeu tudo, menos a pose e a soberba. Alta Sociedade, comédia de Mauro Rasi, é uma impiedosa autópsia da parcela da “elite” brasileira que enriqueceu à sombra de negociatas, que privatiza o público sem socializar o privado, mas vive permanentemente a um passo da sarjeta. Gente que arrota etiqueta, mas não hesita em mostrar seus preconceitos sem qualquer pudor.


    Escrita em 2001, em um Brasil ainda atordoado pelas privatizações e pela ressaca da década de 1990, a peça carrega a assinatura inconfundível do saudoso dramaturgo, falecido em 2003. É um texto com muitas referências históricas e culturais que desafiam o público atento. A montagem atualizada ganha um frescor perverso e contemporâneo: entram em cena a paranoia dos golpes virtuais, as heranças travadas em paraísos fiscais, o pânico de ser exposto nas redes sociais e o falso moralismo. A peça se mostra viva e urgente. A hipocrisia praticamente trocou o figurino.


    A peça tem o mesmo DNA do Programa de TV Sai de Baixo, também de Mauro Rasi. O ritmo das piadas, o jogo cênico construído para a quebra constante da quarta parede e, principalmente, a figura do nobre falido, cujo patrimônio moral é mais vazio que uma conta bloqueada por ordem judicial. 



    A dupla Julia Lemmertz e Orã Figueiredo possui perfeita sintonia. Ela brilha ao compor uma mulher cuja empáfia aristocrática desmorona aos nossos olhos, transitando entre a pose plastificada da alta roda e o histérico desespero da falência, uma personagem que vai se desmanchando cena a cena. Ao seu lado, Orã Figueiredo é o patriarca decadente com uma mistura de cinismo, covardia e fanfarronice. Juntos, conseguem sustentar a espiral de loucura daquela sala de estar, onde o deboche, a bajulação e a corrupção estrutural viram matéria-prima. 

    Ao final da sessão, Julia Lemmertz, visivelmente emocionada, destacou a encruzilhada histórica que se aproxima: a necessidade inadiável de vencermos nas urnas para que a Democracia e a Cultura não sejam asfixiadas por tempos sombrios.


    A arte não é fuga da realidade, mas uma das principais trincheiras contra o avanço da barbárie.

    Ficha técnica: clique aqui

    Foto: divulgação

    Agradecimentos:

    Deca Produções

    Rodrigo Machado (Território Comunicação)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Histórias de Terror e Delicadeza, com Chico Sant’anna


    Dia de homenagens no 59º Festival de Brasília, Sessão hors-concours, mesmo dia do show do Caetano em Taguatinga, inédito. Dia diferente. Correrias e surpresas. Chego cedo, assisto a uma apresentação sobre a série “Delegado”, produzida por Kleber Mendonça. Dia 13, domingo. Domingo é 13! No Templo, que chamo também de lar, por acaso sou o primeiro da fila. Sento no mesmo lugar de sempre, no Templo, meu lar. Tradição no Festival, a apresentação do filme foi uma homenagem carinhosa, respeitosa e merecida a um dos maiores atores de Brasília. Para mim, um dos Monstros Sagrados na Arte mais efêmera que existe, Chico Sant’Anna agora foi eternizado em película homenageando seus 46 anos de carreira, com Dira Paes e Elisa Lucinda, dirigido por Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório.

   

    Inspirado na Peça “Saiba Seu Lugar”, de Santiago Serrano (2019) e em contos autobigráficos de Chico Sant’Anna, Histórias de Terror e Delicadeza conta sobre a busca urgente e tardia de um homem pelo grande amor de sua vida, após receber uma carta desaparecida há décadas. Nessa volta ao passado, é obrigado a rever afetos, segredos, abusos e medos, de um período que é uma chaga na nossa história, a ditadura militar. Seu protagonista carrega a dor na hesitação dos passos, na contenção das mãos que tocam o passado e na dignidade altiva de quem sobreviveu ao autoritarismo sem abrir mão da ternura. Em meio a histórias de terror, a delicadeza é o que te faz ficar vivo. 


    A direção de Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório deixa o silêncio e a penumbra pesarem na tela e os afetos e a luminosidade contidos se apresentarem. O filme tem a presença de Dira Paes e Elisa Lucinda, que trazem uma densidade feminina comovente e acolhedora. No longa também estão Gabriela Corrêa, João Antônio, Dani Vasconcelos e André Deca. O paralelo com Saiba Seu Lugar se torna inevitável. 


    No espetáculo de 2019, Chico apresentava um monólogo denso e corajoso, “Saiba Seu Lugar”, no qual, assim como na telona, sua atuação habitava a economia do gesto, o peso nos ombros e a lágrima que não cai, mas arde lá dentro em todos nós. Quando assisti ao trailer, mesmo sem saber das inspirações do filme, percebi que algo do espetáculo estava no filme, como uma digital. 


    Ao final da sessão, uma longa chuva de aplausos tomou conta do mais importante Cinema da nossa Capital; em pleno festival, o tempo parou para reverenciar um Homem de Teatro. Como no filme, as pessoas lembram de quem é de verdade, enquanto os algozes se perdem no esquecimento. Saiba seu lugar!, Chico, e seu lugar é na história da nossa cultura! Depois foi correr para ver outro Monstro Sagrado. E o dia se despediu ao som de Caetano. Um domingo 13!

    Instagram do Filme: clique aqui

    Entrevista sobre a Peça Saiba o seu Lugar: clique aqui

    Fotos: divulgação




Agenda Cultural em Brasília - outubro/2026

Alta Sociedade

Teatro Unip

17 e 18/10/2026



Zona Franca

CAIXA Cultural Brasília

1º a 03/10/2026




Teatro Mapati

02 e 03/10/2026




 Mini Teatro Lieta de Ló

03/10/2026



Sem Osso 

Teatro Engrenagem

07 a 12/10/2026





Teatro Brasília Shopping
08/10/2026








GRUPO ACCORDI - Nos Caminhos da América - Mercedes Sosa

Espaço Cultural Alexandre Innecco

08/10/2026








Teatro do Ventos
09 e 10/10/2026



Teatro Casa dos 4
09 a 11/10/2026





Teatro SESC Paulo Autran/Taguatinga
10 a 18/10/2026




Tela Plana

Teatro Royal Tulip

10 e 11/10/2026




Espaço Cultural Renato Russo

17 e 18/10/2026




CONFUZO - Cia Dos à Deux

CCBB Brasília

22/10 a 08/11/2026

Vendas ainda indisponíveis



Trilogia Grande Sertão: Veredas

Riobaldo - 23/10/2026

No Meio do Redemunho - 24/10/2026

O Julgamento de Zé Bebelo - 25/10/2026



Céu de Pêssego, da Quasar Cia de Dança

Teatro Nacional Claudio Santoro

23 e 24/10/2026




Teatro Brasília Shopping

29/10/2026




Teatro Infantil e Infantojuvenil


A Monstrinha Corajosa

Teatro Brasília Shopping

03 a 11/10/2026



Teatro dos Bancários

11/10/2026



Pedidos, dicas, patrocínios e sugestões:
WhatsApp: 61-982465903

Parceiros:

sábado, 12 de setembro de 2026

O Deus da Carnificina – Teatro UNIP

    Um hamster abandonado na sarjeta. Uma receita caseira de cuca de maçã com peras. Xícaras servidas com a mais refinada cortesia. Tulipas frescas. Boas maneiras. Boa educação. Um cotidiano comum. Uma reunião pacífica entre dois casais civilizados para redigir um acordo consensual sobre a briga de seus filhos se desdobra, e o verniz social se esfarela. Escrita pela dramaturga francesa Yasmina Reza, a peça teve sua estreia mundial em dezembro de 2006 em Zurique, na Suíça, antes de conquistar os palcos de Paris, de Londres e da Broadway, ganhando maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de Roman Polanski em 2011, estrelada por Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.


    A dramaturgia de Yasmina Reza consegue fluir e propor o jogo com maestria. O diálogo polido, pontuado por sorrisos protocolares, vai sendo lentamente cozido até a animosidade explodir em cena. A dinâmica é vertiginosa: não há heróis nem vilões, apenas alianças voláteis que se desfazem na mesma velocidade em que se formam. Trincheiras se movem constantemente: o embate, que se inicia casal contra casal, transforma-se em cumplicidade misógina entre os homens, passa pela sororidade das mulheres, vira marido contra esposa, esposa contra marido, como um redemoinho, até que reste apenas a guerra de todos contra todos. Assim, o "Deus da Carnificina" assume o comando da sala de estar.


    Se no cinema Polanski usava os enquadramentos para sufocar seus personagens, no teatro o impacto é mais cru: somos testemunhas do colapso da convivência humana. Nessa montagem, o diretor Rodrigo Portella potencializa esse jogo com uma solução interessante: o uso das rubricas faladas pelo elenco. Ao vocalizarem abertamente suas pausas, intenções e marcações de movimento, os personagens despem o véu do artifício da convivência, reconhecendo o valor necessário do ato hipócrita e expondo o abismo ridículo entre o protocolo educado que anunciam e a fúria do ressentimento. O elenco, composto por Thelmo Fernandes, Bianca Byington, Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch, possui ótima sintonia e consegue sustentar o tempo cômico e a voltagem do confronto sem perder em nenhum momento a densidade que o espetáculo exige.     



    Essa degradação se materializa fisicamente na encenação. Rodrigo Portella conduz os atores em uma espiral na qual o espaço e os corpos vão se desmanchando juntos. A cenografia limpa e elegante do apartamento vai sendo aos poucos profanada pelo caos, enquanto os figurinos vão se desabotoando, amarrotando, sujando e se desfigurando no mesmo compasso da sanidade dos personagens. No fim, entre os escombros daquela sala de estar, tudo faz sentido: a civilização é apenas uma piada educada, um disfarce para a essência humana: ser selvagem. 

“Eu acredito no Deus da Carnificina. É o único que governa sem partilha, desde a noite dos tempos.”


Instagram da Peça: clique aqui


Agradecimentos: 

Deca Produções

Rodrigo Machado (Território Comunicação)