sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Histórias de Terror e Delicadeza, com Chico Sant’anna


    Dia de homenagens no 59º Festival de Brasília, Sessão hors-concours, mesmo dia do show do Caetano em Taguatinga, inédito. Dia diferente. Correrias e surpresas. Chego cedo, assisto a uma apresentação sobre a série “Delegado”, produzida por Kleber Mendonça. Dia 13, domingo. Domingo é 13! No Templo, que chamo também de lar, por acaso sou o primeiro da fila. Sento no mesmo lugar de sempre, no Templo, meu lar. Tradição no Festival, a apresentação do filme foi uma homenagem carinhosa, respeitosa e merecida a um dos maiores atores de Brasília. Para mim, um dos Monstros Sagrados na Arte mais efêmera que existe, Chico Sant’Anna agora foi eternizado em película homenageando seus 46 anos de carreira, com Dira Paes e Elisa Lucinda, dirigido por Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório.

   

    Inspirado na Peça “Saiba Seu Lugar”, de Santiago Serrano (2019) e em contos autobigráficos de Chico Sant’Anna, Histórias de Terror e Delicadeza conta sobre a busca urgente e tardia de um homem pelo grande amor de sua vida, após receber uma carta desaparecida há décadas. Nessa volta ao passado, é obrigado a rever afetos, segredos, abusos e medos, de um período que é uma chaga na nossa história, a ditadura militar. Seu protagonista carrega a dor na hesitação dos passos, na contenção das mãos que tocam o passado e na dignidade altiva de quem sobreviveu ao autoritarismo sem abrir mão da ternura. Em meio a histórias de terror, a delicadeza é o que te faz ficar vivo. 


    A direção de Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório deixa o silêncio e a penumbra pesarem na tela e os afetos e a luminosidade contidos se apresentarem. O filme tem a presença de Dira Paes e Elisa Lucinda, que trazem uma densidade feminina comovente e acolhedora. No longa também estão Gabriela Corrêa, João Antônio, Dani Vasconcelos e André Deca. O paralelo com Saiba Seu Lugar se torna inevitável. 


    No espetáculo de 2019, Chico apresentava um monólogo denso e corajoso, “Saiba Seu Lugar”, no qual, assim como na telona, sua atuação habitava a economia do gesto, o peso nos ombros e a lágrima que não cai, mas arde lá dentro em todos nós. Quando assisti ao trailer, mesmo sem saber das inspirações do filme, percebi que algo do espetáculo estava no filme, como uma digital. 


    Ao final da sessão, uma longa chuva de aplausos tomou conta do mais importante Cinema da nossa Capital; em pleno festival, o tempo parou para reverenciar um Homem de Teatro. Como no filme, as pessoas lembram de quem é de verdade, enquanto os algozes se perdem no esquecimento. Saiba seu lugar!, Chico, e seu lugar é na história da nossa cultura! Depois foi correr para ver outro Monstro Sagrado. E o dia se despediu ao som de Caetano. Um domingo 13!

    Instagram do Filme: clique aqui

    Entrevista sobre a Peça Saiba o seu Lugar: clique aqui

    Fotos: divulgação




Agenda Cultural em Brasília - outubro/2026

Alta Sociedade

Teatro Unip

17 e 18/10/2026



Zona Franca

CAIXA Cultural Brasília

1º a 03/10/2026




Teatro Mapati

02 e 03/10/2026




 Mini Teatro Lieta de Ló

03/10/2026



Sem Osso 

Teatro Engrenagem

07 a 12/10/2026





Teatro Brasília Shopping
08/10/2026








GRUPO ACCORDI - Nos Caminhos da América - Mercedes Sosa

Espaço Cultural Alexandre Innecco

08/10/2026








Teatro do Ventos
09 e 10/10/2026



Teatro Casa dos 4
09 a 11/10/2026





Teatro SESC Paulo Autran/Taguatinga
10 a 18/10/2026




Tela Plana

Teatro Royal Tulip

10 e 11/10/2026




Espaço Cultural Renato Russo

17 e 18/10/2026




CONFUZO - Cia Dos à Deux

CCBB Brasília

22/10 a 08/11/2026

Vendas ainda indisponíveis



Trilogia Grande Sertão: Veredas

Riobaldo - 23/10/2026

No Meio do Redemunho - 24/10/2026

O Julgamento de Zé Bebelo - 25/10/2026

Vendas ainda indisponíveis



Céu de Pêssego, da Quasar Cia de Dança

Teatro Nacional Claudio Santoro

23 e 24/10/2026




Teatro Brasília Shopping

29/10/2026




Teatro Infantil e Infantojuvenil


A Monstrinha Corajosa

Teatro Brasília Shopping

03 a 11/10/2026



Teatro dos Bancários

11/10/2026



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sábado, 12 de setembro de 2026

O Deus da Carnificina – Teatro UNIP

    Um hamster abandonado na sarjeta. Uma receita caseira de cuca de maçã com peras. Xícaras servidas com a mais refinada cortesia. Tulipas frescas. Boas maneiras. Boa educação. Um cotidiano comum. Uma reunião pacífica entre dois casais civilizados para redigir um acordo consensual sobre a briga de seus filhos se desdobra, e o verniz social se esfarela. Escrita pela dramaturga francesa Yasmina Reza, a peça teve sua estreia mundial em dezembro de 2006 em Zurique, na Suíça, antes de conquistar os palcos de Paris, de Londres e da Broadway, ganhando maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de Roman Polanski em 2011, estrelada por Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.


    A dramaturgia de Yasmina Reza consegue fluir e propor o jogo com maestria. O diálogo polido, pontuado por sorrisos protocolares, vai sendo lentamente cozido até a animosidade explodir em cena. A dinâmica é vertiginosa: não há heróis nem vilões, apenas alianças voláteis que se desfazem na mesma velocidade em que se formam. Trincheiras se movem constantemente: o embate, que se inicia casal contra casal, transforma-se em cumplicidade misógina entre os homens, passa pela sororidade das mulheres, vira marido contra esposa, esposa contra marido, como um redemoinho, até que reste apenas a guerra de todos contra todos. Assim, o "Deus da Carnificina" assume o comando da sala de estar.


    Se no cinema Polanski usava os enquadramentos para sufocar seus personagens, no teatro o impacto é mais cru: somos testemunhas do colapso da convivência humana. Nessa montagem, o diretor Rodrigo Portella potencializa esse jogo com uma solução interessante: o uso das rubricas faladas pelo elenco. Ao vocalizarem abertamente suas pausas, intenções e marcações de movimento, os personagens despem o véu do artifício da convivência, reconhecendo o valor necessário do ato hipócrita e expondo o abismo ridículo entre o protocolo educado que anunciam e a fúria do ressentimento. O elenco, composto por Thelmo Fernandes, Bianca Byington, Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch, possui ótima sintonia e consegue sustentar o tempo cômico e a voltagem do confronto sem perder em nenhum momento a densidade que o espetáculo exige.     



    Essa degradação se materializa fisicamente na encenação. Rodrigo Portella conduz os atores em uma espiral na qual o espaço e os corpos vão se desmanchando juntos. A cenografia limpa e elegante do apartamento vai sendo aos poucos profanada pelo caos, enquanto os figurinos vão se desabotoando, amarrotando, sujando e se desfigurando no mesmo compasso da sanidade dos personagens. No fim, entre os escombros daquela sala de estar, tudo faz sentido: a civilização é apenas uma piada educada, um disfarce para a essência humana: ser selvagem. 

“Eu acredito no Deus da Carnificina. É o único que governa sem partilha, desde a noite dos tempos.”


Instagram da Peça: clique aqui


Agradecimentos: 

Deca Produções

Rodrigo Machado (Território Comunicação)


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Árvore, com Alessandra Negrini

 

  Meus textos quase sempre são sinceras homenagens às peças que assisto, homenagens ao Teatro. Um olhar muitas vezes dito como sensível e atento. Infelizmente este texto será diferente, será um relato de como um espetáculo pode ser constrangedor se tiver um grande teatro, ótimos produtores, uma ótima dramaturgia, patrocínio, nomes famosos, mas faltar elementos essenciais na cena e falta de conexão entre o que foi escrito e o que se apresentou na montagem. Ainda que não seja agrádavel à primeira vista, a crítica deve sempre prestar seu serviço de registrar com palavras, técnica e emoção o que foi visto.

    A premissa da peça A Árvore é interessante. A dramaturgia da premiada Silvia Gomez propõe uma metamorfose poética kafkiana: uma mulher em seu apartamento que, a partir do instante em que um fio de cabelo se prende a uma planta, inicia um processo de transformação. Há no texto matéria-prima fértil para um mergulho profundo, o que foi melhor aproveitado no longa homônimo de 2021, nascedouro do projeto; mas o que vemos no palco é, infelizmente, constrangedor. 

    Pelo menos na apresentação que assisti, na estreia em Brasília em 27/08/2026, Alessandra Negrini parecia estar deslocada em cena, desconectada do palco, em que pesem seu engajamento e os seus esforços para tentar salvar a peça. A personagem não combina com o jeito infantilizado que foi construída, nem com falta de emoção nas cenas, nem com a interpretação monocórdica; uma personagem sem camadas, artificial e sem a densidade necessária; a tentativa de trazer o público para si e o sorriso de desespero ao não conseguir, tudo vai, no lugar da lenta e quase imperceptível metamorfose prometida, se transformando em decepção.

    A direção de Ester Laccava acompanha os equívocos; em vez de construir uma atmosfera hipnótica para abrigar o delírio da personagem, a encenação espalha elementos sem função dramática, gerando uma confusão visual que dispersa a atenção do público; falta ritmo, falta o preenchimento do espaço, há abuso de falas em off. As escolhas do figurino, que deveriam ser elemento para a metamorfose, também não foram felizes, nem no estilo, nem na paleta de cores; chegando ao ponto de colocar um vestido sobre uma calça jeans e uma blusa para representar a mudança. O cenário ajuda muito pouco na cena, a não ser quando a metamorfose começa a se completar, mesmo assim, uma intervenção tímida que poderia ter sido melhor explorada. A iluminação é um dos poucos pontos positivos da montagem, na escolha das cores e principalmente com os feixes de luz aos minutos finais da peça.


    Ao final, apesar dos aplausos e de algumas pessoas terem gostado e elogiado, na minha singela e sincera opinião nem Caetano Veloso salvou a apresentação; e por respeito e amor ao Teatro, infelizmente, foi necessário escrever este relato/diálogo cultural. Espero que haja autocrítica para que a peça de fato ecoe o que a semente de sua dramaturgia tem guardada dentro de si.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A Dignidade dos Invisíveis: A Retrospectiva Aki Kaurismäki no Cine Brasília

    Um cigarro que queima devagar. A fumaça que sobe. O copo de cerveja sobre o balcão. O silêncio que grita. Um cachorro. Um jarro de flores. Uma casa humilde. Aki Kaurismäki não é um cineasta comum; é uma trincheira contra a pasteurização e padronização do cinema moderno. Ao longo de quatro décadas de uma carreira forjada à margem de Hollywood, o mestre do cinema finlandês construiu sua lenda na poesia minimalista e por sua postura: seja colocando no bolso o Urso de Prata em Berlim de melhor Diretor (O Outro Lado da Esperança - 2017), seja boicotando solenidades do Oscar em protesto contra o patético imperialismo. Avesso às fórmulas do mainstream, Kaurismäki nunca cedeu, mantendo-se fiel a um cinema de operários, desempregados, fracassados e solitários que encontram entre si o afeto e a solidariedade como forma de resistir.     


   A filmografia de Aki atravessou diferentes momentos sem jamais perder a identidade e a assinatura. Da crueza social da Trilogia do Proletariado (Sombras no Paraíso, 1986; Ariel, 1988 e A Garota da Fábrica de Fósforos - 1990) à melancolia  da Trilogia dos Perdedores (Nuvens Passageiras – 1996; O Homem Sem Passado – 2002; e  Luzes na Escuridão – 2006), até sua fase recente voltada ao acolhimento e à imigração, sua assinatura visual é inconfundível. Basta um único fotograma: a geometria precisa dos planos, as paredes em tons primários desbotados, a flor solitária sobre a mesa de fórmica, as casas modestas, os cachorros leais, a música que brota de uma velha jukebox, o rádio de onde soam atrocidades bélicas e a melancolia banhada por um humor peculiar e absurdo. Há muita dignidade na pobreza retratada por Kaurismäki. Uma pobreza que jamais imaginaríamos ser tão dura quando pensamos em um país nórdico, mas ela existe e está lá retratada. E com tamanha humanidade, Aki não vitimiza seus personagens; ele os enobrece através de uma trupe histórica e repetida de atores, cujos rostos imutáveis e olhares profundos dizem tudo o que muitas vezes apenas as palavras não dão conta de expressar.



    Percorrer as obras reunidas na mostra é testemunhar pequenas e grandiosas obras-primas. Vou discorrer brevemente sobre as minhas favoritas: Em Sombras no Paraíso (1986), o lixeiro e a operária de supermercado descobrem que o amor compartilhado é a única fresta de luz em uma rotina fabril opressiva. Com A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (1990), o diretor atinge o ápice do despojamento ao narrar a solidão de uma mulher, cuja revolta silenciosa e implacável é o grito desesperado de quem foi empurrada para além dos limites do desprezo. Já em A Vida Boêmia (1992), rodado em um preto e branco nostálgico pelas ruas de Paris, a fome e a penúria de três artistas marginais (um escritor, um pintor e um músico) são transfiguradas em uma ode à amizade e à cumplicidade. Essa mesma obstinação comove em Nuvens Passageiras (1996), no qual o fantasma do desemprego é enfrentado por um casal com uma coragem poética que recusa a humilhação.



    A maturidade humanista do cineasta atinge o estado de graça em O Homem Sem Passado (2002), fábula luminosa sobre um homem desmemoriado que, acolhido por uma comunidade de sem-teto e pela música do Exército da Salvação, mostra que a verdadeira identidade não está nos documentos. Em Luzes na Escuridão (2006), a desilusão do vigilante noturno enganado pela crueldade do crime desenha o retrato mais austero da exclusão urbana. Seu último filme até o momento, Folhas de Outono (2023) faz uma declaração de amor ao cinema apresentando um romance casual de duas pessoas melancólicas e solitárias e uma sucessão de encontros e desencontros.


  

  Há beleza na desgraça. Há som no silêncio. Aki Kaurismäki sabe jogar o jogo. Sabe ser peculiar e marcar para sempre quem o assiste. Me arrebatou de primeira e assisti cerca de 12 filmes em 10 dias via streaming. Foi uma alegria ter o privilégio de estar presente na  Retrospectiva Aki Kaurismäki, que promoveu a exibição integral de todos os seus 18 longas de ficção, ainda que só tenha conseguido rever três. A iniciativa exemplar da Crisol Filmes, conduzida por Cristiane Oliveira, aliada à curadoria do cineasta brasiliense Gustavo Galvão e ao acolhimento do histórico Cine Brasília, deu a chance ao público de rever na telona cada detalhe da grandeza de um dos maiores mestres do cinema, que atravessou 5 décadas, ainda que para a grande maioria seja um desconhecido. A Mostra também passou por São Paulo e agora será realizada no Rio de Janeiro.

    Meu desejo é que esse pequeno texto ecoe, ainda que no silêncio, e mova a curiosidade, ainda que seja de poucos.  

"- Você gostou do filme? 

- Gostei muito. Fez a gente esquecer a dureza do mundo por uma hora e meia."