domingo, 16 de agosto de 2026

Todas as Cartas e Poemas que Escrevi pra Você – Lucas Sued – Espaço Cultural Renato Russo


    Cartas não enviadas. Versos guardados. Gaveta. Cofre. Mergulho. Asas. Voo. Um convite para entrar na mente de Lucas Sued em uma celebração do encontro. Integrando na mesma noite o lançamento de seu livro, a exposição visual Processos e a montagem cênica no Espaço Cultural Renato Russo, o projeto se revela uma confluência de linguagens, na qual a literatura ganha vida fora das páginas. 


    A dramaturgia tem uma premissa intimista: abrir as páginas de cartas e poemas como quem abre a porta de casa para uma conversa franca sobre amor, perdas e recomeços. O espetáculo se desenha como um refúgio do afeto, tratando as vulnerabilidades e a busca por identidade, criando uma atmosfera que acolhe a plateia sem afetação.


    A peça olha nos olhos do espectador e o insere na narrativa, transformando-se em uma partilha coletiva. O elenco composto por Lucas Sued, Stefany Motta, Maia Sallemar, Pedro Olivo, Vitctoria Cavalcante e Kalebe Lizan demonstra bom domínio cênico, transitando com naturalidade pela leveza das confissões cotidianas, passando pelos questionamentos humanos até a gravidade dos versos mais densos. Destaco as coreografias do autor e as atuações de Maia Sallemar, que quebra a quarta parede de forma muito natural conduzindo o início da viagem, e de Stefany Motta, que emprega energia cênica e se joga em cena.


    “Todas as cartas e poemas que escrevi pra você” compartilha memórias e apresenta Lucas Sued em uma estreia feliz e sensível; fruto de sonho e muito trabalho de um artista.


    Ficha técnica: clique aqui

    Instagram de Lucas Sued: clique aqui



O Motociclista no Globo da Morte – Teatro UNIP

    O vazio que se preenche aos poucos. O giro contínuo e invisível de uma engrenagem que não cessa de rodar. A trajetória circular que desde o início carrega a semente inescapável do fim. A dramaturgia de Leonardo Netto nasce de um incômodo visceral, o choque diante da espetacularização e da banalidade da violência que nos invade pelas telas cotidianas, para investigar o que pode empurrar um homem comum e pacato, avesso a conflitos e guiado pela lógica dos números, ao epicentro da barbárie. O texto é cirúrgico e redondo, cada premissa avança com a precisão até atingir um ponto de não retorno, mostrando com clareza desconcertante como a fronteira entre a civilidade e o abismo pode se romper inesperadamente.

    Eduardo Moscovis apresenta uma atuação visceral, potente, consagrada pelo Prêmio Shell de Melhor Ator. O ator, movido pela paixão pelo tablado, ainda que relutante antes de ler o texto, o tomou para construir um grande trabalho, sozinho em um palco vazio, sem colegas, sem subterfúgios; sentado,  em uma rotação quase imóvel, que está no peso de cada respiração, no olhar que oscila entre a lucidez e o espanto, no choro e na violência na hora certa. A direção de Rodrigo Portella é cúmplice de um trabalho que dispensa excessos cenográficos para acontecer exatamente na mente do público, transformando o silêncio e a imobilidade em matéria-prima.


    A montagem tem um estado de vigília hipnótico. Um silêncio sepulcral toma conta da plateia durante a peça, um silêncio raro de se sentir hoje em dia, quebrado algumas vezes pela trilha quase imperceptível de André Muato, uma sonoplastia de baixa frequência, que parece ecoar de um lugar distante e subterrâneo, que aprofunda a escuta, um silêncio de atenção! O ambiente ganha contornos com a iluminação de Ana Luzia de Simoni, que além de projetar, de forma minimalista,  a luz como uma redoma, utiliza os pantógrafos dos refletores, para, de forma muito sutil, sugerir que o personagem está dentro de um globo da morte. Em outra grande sacada, a luz fica em grande parte do espetáculo também diretamente apontada para o rosto do público, um desconforto intencional que desfaz a distância cênica e nos avisa que não somos meras testemunhas, mas espelho daquela mesma equação.  


    A peça avança despindo nossas contradições; acompanhamos o processo em que gente passa a ser tratada como coisa. “Gente como coisa”, “Estamos sós”, como dizia Beckett. Diferente do picadeiro tradicional de um circo, no qual a plateia muitas vezes assiste ao globo da morte nutrindo a expectativa secreta e mórbida pela queda do piloto; no teatro, a lógica é subvertida e o choque e a queda não são externos, mas dentro de nós. Chegamos ao fim e os rostos ao redor exibem uma expressão física atordoada, como se cada um tivesse violentamente sido retirado do seu eixo. Vazio que se preenche aos poucos.


E o giro termina onde começou e tudo que temos que fazer tentar manter o insustentável equilíbrio.
    

    Destaco a relevância do Circuito de Teatro Brasileiro, realizado pela Deca Produções, consolidando um corredor cultural imprescindível na Capital do País, garantindo ao público local acesso a importantes e premiadas peças nacionais.

    Instagram da peça: clique aqui

    Instagram da Deca Produções: clique aqui

    Agradecimento: Rodrigo Machado (Território Comunicação)


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Amor em Rosa - Criaturas Alaranjadas

    Cabaré, radionovela, plumas, paetês e muito Samba. Um portal dos anos 1930 que se abre no coração de Brasília. Amor em Rosa, musical do coletivo Criaturas Alaranjadas, propõe uma insurreição poética para contar a história de um dos maiores compositores brasileiros e, ao mesmo tempo, tratar do cotidiano da alta roda da Capital. Sob a direção de Sérgio Maggio e Jones Schneider, o musical apresenta uma forma bem humorada, caprichada e original de nos contar sobre a vida de Noel Rosa. 

    A dramaturgia de Sérgio Maggio escolhe um caminho audacioso: costurar 21 canções de Noel com o melodrama das radionovelas e o deboche do teatro de revista. O resultado é um estetáculo vibrante, conduzido por diversas figuras caricatos interpretados e cantados por Jones Schneider, Wol Nunnes e Jeff Moreira, acompanhados pela afinada banda que executa as canções de Noel. 



    O trio de atores está afiado em cena. Jones Schneider conduz o jogo com ginga de malandro e ótimo tempo de comédia; e, além de nos presentear com sua surpreendente voz, assume a responsabilidade de encarnar o próprio Noel Rosa. Ao seu lado, Wol Nunnes brilha intensamente como Marly Temporal e também vive as principais mulheres que orbitaram a vida do compositor. Jeff Moreira, encarnando com puro glamour e deboche a fabulosa Condessa Genoveva, fã inveterada de Noel, envolta em plumas e paetês, sambando na cara da sociedade e brindando o público com a celebração da vida e obra de Noel e expondo os babados da rídicula “alta sociedade” de Brasília; concatenada com as críticas e denúncias em grande parte autobiográficas das músicas do Poeta da Vila, sua língua de cobra chicoteia sem pudores a hipocrisia dessa gente que só cai pra cima.


    Na parte técnica, o figurino reluzente traduz a época e o tom do deboche de cada personagem; a cenografia recorta o tempo e espaço de forma primorosa, transportando o espectador entre o ambiente boêmio, o da Radionovela e o do Teatro de Revista; e a iluminação pincela a cena entre as sombras da noite e as cores vibrantes do cabaré. 

   

    Assim como as músicas de Noel, Amor em Rosa é uma peça que nos embarca em uma viagem no tempo, com a sensação de vivenciar momentos que não voltam mais, mas merecem ser relembrados. Uma peça interessante para celebrarmos juntos Noel e os 20 anos das Criaturas Alaranjadas e, também, para mostrar às novas gerações hiperconectadas recortes importantes da nossa História.


O Sol da Vila é triste

Samba não assiste

Porque a gente implora

Sol, pelo amor de Deus, não vem agora

Que as morenas vão logo embora 


    Ingressos: clique aqui 

    Fotos: Divulgação

domingo, 2 de agosto de 2026

Escola de Mulheres (Molière) - Grupo TAPA

 

    O medo do corno. A cela. A clausura.

    Ao longo dos séculos, o riso perdura.

    Um homem obcecado por um plano tirano,

    Que foge da vida buscando o engano,

    Em seu medo, na própria amargura,

    Tenta moldar o afeto, com rédea segura,

    Querendo uma esposa ingênua e tapada,

    Na mais absoluta ignorância criada.



    Se hoje o abuso nos causa repulsa e terror,

    Nos tempos de outrora gerou grande clamor.

    O controle que tenta a elas silenciar,

    Com falsos preceitos e rezas a ditar,

    Encontrava no templo o aval da doutrina,

    Para manter submissa a mente feminina.

    O que antigamente era norma de zelo e decência,

    Revela-se ao longo do tempo em cruel violência;

    Mas a força do texto resiste ao desterro,

    Sem que o tempo apague o rastro de erro.


    Molière, com a pena afiada e certeira,

    Fez do riso do homem sua grande trincheira.

    Há quase quatrocentos anos, no auge da mente,

    Ele próprio viveu este Cornélio demente.

    Sua escrita maldita, que o tempo não gasta,

    Desmascara a tolice que a vida arrasta,

    Provocou a sociedade, enfrentou o sermão;

    E fez da tragicomédia uma revolução.



    O Grupo TAPA, com zelo e esmero profundo,

    Traz em cena esse clássico para o mundo.

    Sob a direção de Clara Carvalho,

    A trupe caminha por uma peça do caralho.

    Brian Penido Ross dá ao Cornélio a exagerada medida,

    De uma farsa que pulsa, de alma vertida.

    Carol Kufel, no palco, é a Inês que floresce,

    Num jogo em que a plateia jamais adormece.

    Há décadas na estrada dos saltimbancos, o Tapa no tablado,

    Mantendo com afinco o verdadeiro templo sagrado.


Saímos do teatro refletindo, afinal, por que Molière é tão atual!




   Clara Carvalho

    Ficha Técnica: clique aqui

    Sobre Molière: clique aqui

    Instagram do Grupo TAPA: clique aqui

    Instagram da peça: clique aqui

    Agradecimento: Rodrigo Machado (Território Comunicação)


Pedidos, dicas, patrocínios e sugestões:
WhatsApp: 61-982465903

Parceiros:

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Memórias do Vinho - Herson Capri e Caio Blat

 
     Uma adega empoeirada. Um pai e um filho. O fiasco por herança. Caixas e garrafas acumuladas como capítulos de uma longa história. Memórias do Vinho, não é apenas um espetáculo sobre o reencontro; é um brinde bem humorado e, ao mesmo tempo, doloroso à fragilidade das relações humanas.

  O texto, que marca a despedida da saudosa Jandira Martini em colaboração com Maurício Guilherme, desenvolve-se a partir do confronto inevitável entre duas solidões. Pai (Herson Capri) e filho (Caio Blat) se reencontram em meio ao silêncio de uma coleção de vinhos reunida ao longo de décadas. Afastados por desavenças mal envelhecidas, a ansiedade do filho em rever seu pai logo dá lugar a uma espiral de revelações, catalisadas pelo vinho, o desinibidor de verdades.

    Herson Capri é o pai que, imerso no silêncio empoeirado, colecionou ao longo da vida raridades líquidas como quem tenta reter o tempo que escorreu por entre os dedos. Caio Blat é o filho,  movido por uma urgência quase febril, um desespero que se esconde atrás de uma aparente altivez. O embate entre os dois possui ótima sinergia na troca de olhares e no tempo das pausas, dando profundidade ao texto.

    A direção de Elias Andreato confia na força do texto e nos seus atores, sabendo quando deixar o silêncio atuar na cena. O cenário de Rebeca Oliveira evoca a sobriedade fria e acolhedora de uma adega esquecida, transformando o espaço físico em uma verdadeira biblioteca de memórias. A iluminação de Cleber Eli trabalha com tons quentes e sombras sutis, recortando os personagens como se estivessem suspensos no tempo, enquanto o figurino de Mari Chileni oferece a sobriedade exata para o cotidiano descolorido dos personagens.

    Memórias do Vinho nos deixa com o retrogosto das conversas que tantas vezes adiamos, da nossa eterna dificuldade de entendimento entre a falta de paciência de envelhecer o vinho e de quando degustá-lo; entre a paciência de envelhecer e de quando degustar a vida sem antes de  azedar. 


Por Baco!


    Ficha Técnica: Clique aqui
    Vídeo com entrevista sobre o espetáculo: Clique aqui

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O Pai - Fúlvio Stefanini

 

    Um apartamento. Desconstrução. Um relógio. Perdido em todos os sentidos. Um labirinto impiedoso. A mente. Desconstrução. Ser humano. Perdido em todos os sentidos. O Pai, texto do dramaturgo francês Florian Zeller, nos coloca dentro das angústias, delírios, alegrias e percepção de seu protagonista: André (Fúlvio Stefanini), um idoso de 80 anos que enfrenta os implacáveis efeitos do ocaso físico e  cognitivo. Sua filha (Carol Gonzalez) lida com o dilema ético e prático do cuidado: acolher o pai em sua própria rotina ou seguir a sua própria vida. 


    A essência do texto tem força na narrativa. Ao invés de apenas observarmos o drama, somos inseridos nele, compartilhando a confusão da mente de André, vivenciando seus lapsos de memória, a troca de rostos ao seu redor e seu desaparecimento gradual e de seus pertences; e também a dificuldade de quem vive ao seu redor. Um drama íntimo que, ainda que tratado com bom humor, consegue nos tirar o chão.


    Fúlvio Stefanini  com a marca característica dos grandes atores, faz o atuar parecer simples; sua naturalidade e presença que dominam a cena. Celebrando mais de sete décadas dedicadas à Arte, Fúlvio nos entrega um protagonista complexo; seu personagem, André, foge de qualquer caricatura fácil e banal da senilidade; é espirituoso, carismático, orgulhoso de si e de uma vivacidade contagiante. A transição entre a altivez e a fragilidade é de uma beleza dolorosa. 

    Fúlvio é amparado pelo elenco dedicado, onde Carol Gonzalez, Lara Córdula, Carol Mariottini, Luciano Schwab e Fulvio Filho, funcionam como âncoras e espelhos da realidade que se despedaça na nossa frente. A direção de Léo Stefanini equilibra muito bem a comédia e o drama.


    O cenário de André Cortez se desconstrói como a narrativa: as paredes e os móveis parecem sofrer um lento e sutil processo de subtração, materializando no espaço físico o apagamento das memórias do protagonista. A iluminação de Diego Cortez e o som de Raul Teixeira e Renato Navarro desenham com sensibilidade as sombras e os silêncios dessa mente enclausurada, enquanto os figurinos de Lelê Barbieri dão a textura exata ao cotidiano que descolore. 

    O Pai expõe nossa própria finitude em um espetáculo comovente e reflexivo. 


Por mais que o tempo seja infalível, o Teatro é eterno! 


    Ficha Técnica: clique aqui