O som do xilofone flutua sobre o espelho-d’água. A noite de Brasília. Pintura aberta, Museu Nacional da República ao lado e a Esplanada ao fundo. A Cultura e a Política. A lua lua verticalmente acima, lá em cima, bem acima, longe, iluminando a noite e o concreto. A dança em câmera lenta ao som do tilintar, como se a vida e o tempo estivesse parado no ar. Futuro do Passado. Como não está? Ciclos lentos a tilintar. Nunca se esqueça que a democracia é uma fresta frágil, uma construção.
A mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil, alimento básico essencial para a civilização. Nenhuma civilização nasceu sem ter acesso a uma forma básica de alimentação, e aqui nós temos uma, a mandioca. Saudemos a mandioca! Uma mulher sem retrocesso, mas estamos no futuro do passado, não se entrega as pessoas que o torturador quer. Eu me orgulho de ter mentido. Eu me orgulho imensamente de ter mentido. Porque eu salvei companheiros da mesma tortura e da morte. A dor é insuportável. Na democracia, diz-se a verdade, mas diante da tortura, quem tem coragem e dignidade mente. Dela nasce o Menino Feio, o Herói Sem Nenhum Caráter. Oriundo da cultura de povos indígenas do extremo norte brasileiro, Macunaímã e não Macunaíma. Cai de corda, acorda, pula corda, morte súbita; e, no futuro do passado, chegamos a 1922.
Foto: Diego Bresani
Semana de Arte Moderna. Todo um país sintetizado pela burguesia paulistana, por herdeiros dos barões do café que fizeram fortuna com trabalho de escravizados. 1922. Futuro do Passado. Cadillac Verde. Anauê! Embranquecimento. Conservadorismo. Anauê! Nem um gay negro conseguiu sê-lo. Pesquisas são e foram importantes, mas imagina se falássemos disso desde aquela época, Mário! E 1922 vem com a cara de futuro do passado! Na esteira do movimento, Plínio Salgado, o integralista, verde como o Cadillac, fascista tupiniquim, tupi or not tupi. Projeto de Raça Cósmica, a antropofagia e a eugenia, em fagia, uma raça sendo engolida pela outra, miscigenação esquisita, embranquecida, eugenia, antropofagia, sua história, nossa história, raça cósmica. A ditadura contando com apoio de intelectuais de 1922, futuro do passado, raça cósmica, sua história, nossa história. Definindo por São Paulo o que é o Brasil. O que é a cultura brasileira. Comeram tudo.
Como se não bastassem as armas e apitos de cachorro, temos as cruzes, eurocêntricas, pauliscêntricas, raça cósmica ao som de coral messiânico. Raça cósmica, miscigenação esquisita, embranquecida, eugenia, antropofagia, sua história, nossa história. Cadê os Krenaks, Guaranis, Pataxós, Yanomamis, Potiguaras, Xavantes, Guajajaras, Terenas, Macuxis e muitos outros? Apagados? Integrados? Colonizados? Como é importante agroflorescer, mas só sabemos empilhar pedras e cruzes. Raça cósmica. Não conseguimos nem olhar para dentro, como olhar para o cosmos? 1922. Futuro do Passado. 2026. O fardo que as mulheres carregam. O patriarcado, o feminicídio. 1922. 2026. Tudo interligado. Quadros e esquadros. Enquadros. Em quadros. Nem as mulheres que se destacaram na Semana de Arte Moderna foram poupadas de serem emolduradas, de serem assediadas, de serem desacreditadas, chamadas de paranoia e aberração. 1922. 2026.
Futuro do Passado é Manifesto e é Chá Revelação. Qual sua classe, imbecil? Um aviso. Um alerta. Futuro do Passado. Sua história, nossa história. Sobre escombros e pneus. A vanguarda modernista foi bancada pelo capital dos herdeiros barões do café, descendentes de escravocratas. Antes moíam escravizados, em 1922 moíam assalariados. Futuro do Passado. 2026. Precisamos tomar e ocupar os espaços e as ruas para que não sejam fechados. Somos o futuro do passado. Somos de luta e samba!
Foto: Tadeu Almeida
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos ,
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
O eterno mestre Hugo Rodas será homenageado pela Escola de Samba Unidos do Varjão, no Carnaval de 2027.
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Agradecimentos: Dani Neri






















