quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Árvore, com Alessandra Negrini

 

  Meus textos quase sempre são sinceras homenagens às peças que assisto, homenagens ao Teatro. Um olhar muitas vezes dito como sensível e atento. Infelizmente este texto será diferente, será um relato de como um espetáculo pode ser constrangedor se tiver um grande teatro, ótimos produtores, uma ótima dramaturgia, patrocínio, nomes famosos, mas faltar elementos essenciais na cena e falta de conexão entre o que foi escrito e o que se apresentou na montagem. Ainda que não seja agrádavel à primeira vista, a crítica deve sempre prestar seu serviço de registrar com palavras, técnica e emoção o que foi visto.

    A premissa da peça A Árvore é interessante. A dramaturgia da premiada Silvia Gomez propõe uma metamorfose poética kafkiana: uma mulher em seu apartamento que, a partir do instante em que um fio de cabelo se prende a uma planta, inicia um processo de transformação. Há no texto matéria-prima fértil para um mergulho profundo, o que foi melhor aproveitado no longa homônimo de 2021, nascedouro do projeto; mas o que vemos no palco é, infelizmente, constrangedor. 

    Pelo menos na apresentação que assisti, na estreia em Brasília em 27/08/2026, Alessandra Negrini parecia estar deslocada em cena, desconectada do palco, em que pesem seu engajamento e os seus esforços para tentar salvar a peça. A personagem não combina com o jeito infantilizado que foi construída, nem com falta de emoção nas cenas, nem com a interpretação monocórdica; uma personagem sem camadas, artificial e sem a densidade necessária; a tentativa de trazer o público para si e o sorriso de desespero ao não conseguir, tudo vai, no lugar da lenta e quase imperceptível metamorfose prometida, se transformando em decepção.

    A direção de Ester Laccava acompanha os equívocos; em vez de construir uma atmosfera hipnótica para abrigar o delírio da personagem, a encenação espalha elementos sem função dramática, gerando uma confusão visual que dispersa a atenção do público; falta ritmo, falta o preenchimento do espaço, há abuso de falas em off. As escolhas do figurino, que deveriam ser elemento para a metamorfose, também não foram felizes, nem no estilo, nem na paleta de cores; chegando ao ponto de colocar um vestido sobre uma calça jeans e uma blusa para representar a mudança. O cenário ajuda muito pouco na cena, a não ser quando a metamorfose começa a se completar, mesmo assim, uma intervenção tímida que poderia ter sido melhor explorada. A iluminação é um dos poucos pontos positivos da montagem, na escolha das cores e principalmente com os feixes de luz aos minutos finais da peça.


    Ao final, apesar dos aplausos e de algumas pessoas terem gostado e elogiado, na minha singela e sincera opinião nem Caetano Veloso salvou a apresentação; e por respeito e amor ao Teatro, infelizmente, foi necessário escrever este relato/diálogo cultural. Espero que haja autocrítica para que a peça de fato ecoe o que a semente de sua dramaturgia tem guardada dentro de si.