quarta-feira, 29 de julho de 2026

Memórias do Vinho - Herson Capri e Caio Blat

 
     Uma adega empoeirada. Um pai e um filho. O fiasco por herança. Caixas e garrafas acumuladas como capítulos de uma longa história. Memórias do Vinho, não é apenas um espetáculo sobre o reencontro; é um brinde bem humorado e, ao mesmo tempo, doloroso à fragilidade das relações humanas.

  O texto, que marca a despedida da saudosa Jandira Martini em colaboração com Maurício Guilherme, desenvolve-se a partir do confronto inevitável entre duas solidões. Pai (Herson Capri) e filho (Caio Blat) se reencontram em meio ao silêncio de uma coleção de vinhos reunida ao longo de décadas. Afastados por desavenças mal envelhecidas, a ansiedade do filho em rever seu pai logo dá lugar a uma espiral de revelações, catalisadas pelo vinho, o desinibidor de verdades.

    Herson Capri é o pai que, imerso no silêncio empoeirado, colecionou ao longo da vida raridades líquidas como quem tenta reter o tempo que escorreu por entre os dedos. Caio Blat é o filho,  movido por uma urgência quase febril, um desespero que se esconde atrás de uma aparente altivez. O embate entre os dois possui ótima sinergia na troca de olhares e no tempo das pausas, dando profundidade ao texto.

    A direção de Elias Andreato confia na força do texto e nos seus atores, sabendo quando deixar o silêncio atuar na cena. O cenário de Rebeca Oliveira evoca a sobriedade fria e acolhedora de uma adega esquecida, transformando o espaço físico em uma verdadeira biblioteca de memórias. A iluminação de Cleber Eli trabalha com tons quentes e sombras sutis, recortando os personagens como se estivessem suspensos no tempo, enquanto o figurino de Mari Chileni oferece a sobriedade exata para o cotidiano descolorido dos personagens.

    Memórias do Vinho nos deixa com o retrogosto das conversas que tantas vezes adiamos, da nossa eterna dificuldade de entendimento entre a falta de paciência de envelhecer o vinho e de quando degustá-lo; entre a paciência de envelhecer e de quando degustar a vida sem antes de  azedar. 


Por Baco!


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