Um cigarro que queima devagar. A fumaça que sobe. O copo de cerveja sobre o balcão. O silêncio que grita. Um cachorro. Um jarro de flores. Uma casa humilde. Aki Kaurismäki não é um cineasta comum; é uma trincheira contra a pasteurização e padronização do cinema moderno. Ao longo de quatro décadas de uma carreira forjada à margem de Hollywood, o mestre do cinema finlandês construiu sua lenda na poesia minimalista e por sua postura: seja colocando no bolso o Urso de Prata em Berlim de melhor Diretor (O Outro Lado da Esperança - 2017), seja boicotando solenidades do Oscar em protesto contra o patético imperialismo. Avesso às fórmulas do mainstream, Kaurismäki nunca cedeu, mantendo-se fiel a um cinema de operários, desempregados, fracassados e solitários que encontram entre si o afeto e a solidariedade como forma de resistir.
A filmografia de Aki atravessou diferentes momentos sem jamais perder a identidade e a assinatura. Da crueza social da Trilogia do Proletariado (Sombras no Paraíso, 1986; Ariel, 1988 e A Garota da Fábrica de Fósforos - 1990) à melancolia da Trilogia dos Perdedores (Nuvens Passageiras – 1996; O Homem Sem Passado – 2002; e Luzes na Escuridão – 2006), até sua fase recente voltada ao acolhimento e à imigração, sua assinatura visual é inconfundível. Basta um único fotograma: a geometria precisa dos planos, as paredes em tons primários desbotados, a flor solitária sobre a mesa de fórmica, as casas modestas, os cachorros leais, a música que brota de uma velha jukebox, o rádio de onde soam atrocidades bélicas e a melancolia banhada por um humor peculiar e absurdo. Há muita dignidade na pobreza retratada por Kaurismäki. Uma pobreza que jamais imaginaríamos ser tão dura quando pensamos em um país nórdico, mas ela existe e está lá retratada. E com tamanha humanidade, Aki não vitimiza seus personagens; ele os enobrece através de uma trupe histórica e repetida de atores, cujos rostos imutáveis e olhares profundos dizem tudo o que muitas vezes apenas as palavras não dão conta de expressar.
Percorrer as obras reunidas na mostra é testemunhar pequenas e grandiosas obras-primas. Vou discorrer brevemente sobre as minhas favoritas: Em Sombras no Paraíso (1986), o lixeiro e a operária de supermercado descobrem que o amor compartilhado é a única fresta de luz em uma rotina fabril opressiva. Com A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (1990), o diretor atinge o ápice do despojamento ao narrar a solidão de uma mulher, cuja revolta silenciosa e implacável é o grito desesperado de quem foi empurrada para além dos limites do desprezo. Já em A Vida Boêmia (1992), rodado em um preto e branco nostálgico pelas ruas de Paris, a fome e a penúria de três artistas marginais (um escritor, um pintor e um músico) são transfiguradas em uma ode à amizade e à cumplicidade. Essa mesma obstinação comove em Nuvens Passageiras (1996), no qual o fantasma do desemprego é enfrentado por um casal com uma coragem poética que recusa a humilhação.
A maturidade humanista do cineasta atinge o estado de graça em O Homem Sem Passado (2002), fábula luminosa sobre um homem desmemoriado que, acolhido por uma comunidade de sem-teto e pela música do Exército da Salvação, mostra que a verdadeira identidade não está nos documentos. Em Luzes na Escuridão (2006), a desilusão do vigilante noturno enganado pela crueldade do crime desenha o retrato mais austero da exclusão urbana. Seu último filme até o momento, Folhas de Outono (2023) faz uma declaração de amor ao cinema apresentando um romance casual de duas pessoas melancólicas e solitárias e uma sucessão de encontros e desencontros.
Há beleza na desgraça. Há som no silêncio. Aki Kaurismäki sabe jogar o jogo. Sabe ser peculiar e marcar para sempre quem o assiste. Me arrebatou de primeira e assisti cerca de 12 filmes em 10 dias via streaming. Foi uma alegria ter o privilégio de estar presente na Retrospectiva Aki Kaurismäki, que promoveu a exibição integral de todos os seus 18 longas de ficção, ainda que só tenha conseguido rever três. A iniciativa exemplar da Crisol Filmes, conduzida por Cristiane Oliveira, aliada à curadoria do cineasta brasiliense Gustavo Galvão e ao acolhimento do histórico Cine Brasília, deu a chance ao público de rever na telona cada detalhe da grandeza de um dos maiores mestres do cinema, que atravessou 5 décadas, ainda que para a grande maioria seja um desconhecido. A Mostra também passou por São Paulo e agora será realizada no Rio de Janeiro.
Meu desejo é que esse pequeno texto ecoe, ainda que no silêncio, e mova a curiosidade, ainda que seja de poucos.
"- Você gostou do filme?
- Gostei muito. Fez a gente esquecer a dureza do mundo por uma hora e meia."
👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
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