sábado, 12 de setembro de 2026

O Deus da Carnificina – Teatro UNIP

    Um hamster abandonado na sarjeta. Uma receita caseira de cuca de maçã com peras. Xícaras servidas com a mais refinada cortesia. Tulipas frescas. Boas maneiras. Boa educação. Um cotidiano comum. Uma reunião pacífica entre dois casais civilizados para redigir um acordo consensual sobre a briga de seus filhos se desdobra, e o verniz social se esfarela. Escrita pela dramaturga francesa Yasmina Reza, a peça teve sua estreia mundial em dezembro de 2006 em Zurique, na Suíça, antes de conquistar os palcos de Paris, de Londres e da Broadway, ganhando maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de Roman Polanski em 2011, estrelada por Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.


    A dramaturgia de Yasmina Reza consegue fluir e propor o jogo com maestria. O diálogo polido, pontuado por sorrisos protocolares, vai sendo lentamente cozido até a animosidade explodir em cena. A dinâmica é vertiginosa: não há heróis nem vilões, apenas alianças voláteis que se desfazem na mesma velocidade em que se formam. Trincheiras se movem constantemente: o embate, que se inicia casal contra casal, transforma-se em cumplicidade misógina entre os homens, passa pela sororidade das mulheres, vira marido contra esposa, esposa contra marido, como um redemoinho, até que reste apenas a guerra de todos contra todos. Assim, o "Deus da Carnificina" assume o comando da sala de estar.


    Se no cinema Polanski usava os enquadramentos para sufocar seus personagens, no teatro o impacto é mais cru: somos testemunhas do colapso da convivência humana. Nessa montagem, o diretor Rodrigo Portella potencializa esse jogo com uma solução interessante: o uso das rubricas faladas pelo elenco. Ao vocalizarem abertamente suas pausas, intenções e marcações de movimento, os personagens despem o véu do artifício da convivência, reconhecendo o valor necessário do ato hipócrita e expondo o abismo ridículo entre o protocolo educado que anunciam e a fúria do ressentimento. O elenco, composto por Thelmo Fernandes, Bianca Byington, Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch, possui ótima sintonia e consegue sustentar o tempo cômico e a voltagem do confronto sem perder em nenhum momento a densidade que o espetáculo exige.     



    Essa degradação se materializa fisicamente na encenação. Rodrigo Portella conduz os atores em uma espiral na qual o espaço e os corpos vão se desmanchando juntos. A cenografia limpa e elegante do apartamento vai sendo aos poucos profanada pelo caos, enquanto os figurinos vão se desabotoando, amarrotando, sujando e se desfigurando no mesmo compasso da sanidade dos personagens. No fim, entre os escombros daquela sala de estar, tudo faz sentido: a civilização é apenas uma piada educada, um disfarce para a essência humana: ser selvagem. 

“Eu acredito no Deus da Carnificina. É o único que governa sem partilha, desde a noite dos tempos.”


Instagram da Peça: clique aqui


Agradecimentos: 

Deca Produções

Rodrigo Machado (Território Comunicação)


Nenhum comentário:

Postar um comentário