Um hamster abandonado na sarjeta. Uma receita caseira de cuca de maçã com peras. Xícaras servidas com a mais refinada cortesia. Tulipas frescas. Boas maneiras. Boa educação. Um cotidiano comum. Uma reunião pacífica entre dois casais civilizados para redigir um acordo consensual sobre a briga de seus filhos se desdobra, e o verniz social se esfarela. Escrita pela dramaturga francesa Yasmina Reza, a peça teve sua estreia mundial em dezembro de 2006 em Zurique, na Suíça, antes de conquistar os palcos de Paris, de Londres e da Broadway, ganhando maior notoriedade com a adaptação cinematográfica de Roman Polanski em 2011, estrelada por Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.
Se no cinema Polanski usava os enquadramentos para sufocar seus personagens, no teatro o impacto é mais cru: somos testemunhas do colapso da convivência humana. Nessa montagem, o diretor Rodrigo Portella potencializa esse jogo com uma solução interessante: o uso das rubricas faladas pelo elenco. Ao vocalizarem abertamente suas pausas, intenções e marcações de movimento, os personagens despem o véu do artifício da convivência, reconhecendo o valor necessário do ato hipócrita e expondo o abismo ridículo entre o protocolo educado que anunciam e a fúria do ressentimento. O elenco, composto por Thelmo Fernandes, Bianca Byington, Angelo Paes Leme e Anna Sophia Folch, possui ótima sintonia e consegue sustentar o tempo cômico e a voltagem do confronto sem perder em nenhum momento a densidade que o espetáculo exige.
“Eu acredito no Deus da Carnificina. É o único que governa sem partilha, desde a noite dos tempos.”
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Agradecimentos:
Rodrigo Machado (Território Comunicação)
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