Dia de homenagens no 59º Festival de Brasília, Sessão hors-concours, mesmo dia do show do Caetano em Taguatinga, inédito. Dia diferente. Correrias e surpresas. Chego cedo, assisto a uma apresentação sobre a série “Delegado”, produzida por Kleber Mendonça. Dia 13, domingo. Domingo é 13! No Templo, que chamo também de lar, por acaso sou o primeiro da fila. Sento no mesmo lugar de sempre, no Templo, meu lar. Tradição no Festival, a apresentação do filme foi uma homenagem carinhosa, respeitosa e merecida a um dos maiores atores de Brasília. Para mim, um dos Monstros Sagrados na Arte mais efêmera que existe, Chico Sant’Anna agora foi eternizado em película homenageando seus 46 anos de carreira, com Dira Paes e Elisa Lucinda, dirigido por Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório.
Inspirado na Peça “Saiba Seu Lugar”, de Santiago Serrano (2019) e em contos autobigráficos de Chico Sant’Anna, Histórias de Terror e Delicadeza conta sobre a busca urgente e tardia de um homem pelo grande amor de sua vida, após receber uma carta desaparecida há décadas. Nessa volta ao passado, é obrigado a rever afetos, segredos, abusos e medos, de um período que é uma chaga na nossa história, a ditadura militar. Seu protagonista carrega a dor na hesitação dos passos, na contenção das mãos que tocam o passado e na dignidade altiva de quem sobreviveu ao autoritarismo sem abrir mão da ternura. Em meio a histórias de terror, a delicadeza é o que te faz ficar vivo.

A direção de Jimi Figueiredo e Sérgio Sartório deixa o silêncio e a penumbra pesarem na tela e os afetos e a luminosidade contidos se apresentarem. O filme tem a presença de Dira Paes e Elisa Lucinda, que trazem uma densidade feminina comovente e acolhedora. No longa também estão Gabriela Corrêa, João Antônio, Dani Vasconcelos e André Deca. O paralelo com Saiba Seu Lugar se torna inevitável.
No espetáculo de 2019, Chico apresentava um monólogo denso e corajoso, “Saiba Seu Lugar”, no qual, assim como na telona, sua atuação habitava a economia do gesto, o peso nos ombros e a lágrima que não cai, mas arde lá dentro em todos nós. Quando assisti ao trailer, mesmo sem saber das inspirações do filme, percebi que algo do espetáculo estava no filme, como uma digital.
Ao final da sessão, uma longa chuva de aplausos tomou conta do mais importante Cinema da nossa Capital; em pleno festival, o tempo parou para reverenciar um Homem de Teatro. Como no filme, as pessoas lembram de quem é de verdade, enquanto os algozes se perdem no esquecimento. Saiba seu lugar!, Chico, e seu lugar é na história da nossa cultura! Depois foi correr para ver outro Monstro Sagrado. E o dia se despediu ao som de Caetano. Um domingo 13!
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Fotos: divulgação
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