A prataria esconde o mofo. O Champanhe que já borbulhou, em outros tempos, servido em taça de cristal. O desespero indisfarçável de quem tinha muito e perdeu tudo, menos a pose e a soberba. Alta Sociedade, comédia de Mauro Rasi, é uma impiedosa autópsia da parcela da “elite” brasileira que enriqueceu à sombra de negociatas, que privatiza o público sem socializar o privado, mas vive permanentemente a um passo da sarjeta. Gente que arrota etiqueta, mas não hesita em mostrar seus preconceitos sem qualquer pudor.

Escrita em 2001, em um Brasil ainda atordoado pelas privatizações e pela ressaca da década de 1990, a peça carrega a assinatura inconfundível do saudoso dramaturgo, falecido em 2003. É um texto com muitas referências históricas e culturais que desafiam o público atento. A montagem atualizada ganha um frescor perverso e contemporâneo: entram em cena a paranoia dos golpes virtuais, as heranças travadas em paraísos fiscais, o pânico de ser exposto nas redes sociais e o falso moralismo. A peça se mostra viva e urgente. A hipocrisia praticamente trocou o figurino.
A peça tem o mesmo DNA do Programa de TV Sai de Baixo, também de Mauro Rasi. O ritmo das piadas, o jogo cênico construído para a quebra constante da quarta parede e, principalmente, a figura do nobre falido, cujo patrimônio moral é mais vazio que uma conta bloqueada por ordem judicial.
A dupla Julia Lemmertz e Orã Figueiredo possui perfeita sintonia. Ela brilha ao compor uma mulher cuja empáfia aristocrática desmorona aos nossos olhos, transitando entre a pose plastificada da alta roda e o histérico desespero da falência, uma personagem que vai se desmanchando cena a cena. Ao seu lado, Orã Figueiredo é o patriarca decadente com uma mistura de cinismo, covardia e fanfarronice. Juntos, conseguem sustentar a espiral de loucura daquela sala de estar, onde o deboche, a bajulação e a corrupção estrutural viram matéria-prima.
Ao final da sessão, Julia Lemmertz, visivelmente emocionada, destacou a encruzilhada histórica que se aproxima: a necessidade inadiável de vencermos nas urnas para que a Democracia e a Cultura não sejam asfixiadas por tempos sombrios.
A arte não é fuga da realidade, mas uma das principais trincheiras contra o avanço da barbárie.
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Foto: divulgação
Agradecimentos:
Deca Produções
Rodrigo Machado (Território Comunicação)
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